41.7 C
Rio Branco
21 setembro 2021 11:50 am
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Pai de menino com braço quebrado que morreu após receber anestesia, desabafa: ‘Queremos justiça’

Saimon Gabriel, de seis anos, morreu em fevereiro, em Manicoré, no interior do Amazonas, após receber quatro anestesias para enfaixar um braço quebrado. Denúncia foi feita pela mãe do menino, Sandy Freitas, que acompanhou a aplicação das doses

POR G1

O autônomo Jailson Coutinho, pai do menino Saimon Gabriel, que morreu após receber quatro anestesias para tratar um braço quebrado, quer a punição do médico responsável pelo procedimento.

Sete meses depois da tragédia, ocorrida em Manicoré, no interior do Amazonas, o pai disse que ainda não têm respostas sobre a morte do filho e que chora constantemente a ausência da criança. O médico responsável pelo procedimento foi afastado das funções logo após o ocorrido.

Na época, a denúncia foi feita pela mãe do menino, Sandy Freitas, que acompanhou a aplicação das doses.

Saimon, de 6 anos, deu entrada no hospital Dr. Hamilton Cidade após sofrer um acidente de moto com o pai, que também ficou internado.

Na colisão, a criança fraturou o braço e foi levada à unidade hospitalar, de onde não saiu com vida.

“Queremos que haja justiça. Não tem como isso ficar assim não. Ele tem que ser punido”.

Desde a morte da criança, Jailson disse ao G1 que a família não tem um dia que não chore a ausência do filho.

Com o passar do tempo, a dor ficou ainda pior, principalmente para ele, que sequer conseguiu se despedir da criança, já que também foi internado após acidente.

“Eu sofro, a mãe sofre, o irmão de três anos sofre. Eram os dois. Eles brincavam juntos. Aí ele fica perguntando por ele. É terrível o que estamos passando, estamos desesperados. Não tem como ficar bem com uma situação dessa”

Jailson disse que após se recuperar chegou a procurar a delegacia da cidade para saber como estavam as investigações do caso. Na ocasião, foi informado que o Inquérito Policial havia sido concluído e encaminhado Ministério Público, mas não obteve mais respostas.

“Era o bracinho do meu filho e eu não pude fazer nada. O sentimento é terrível. Não pude nem me despedir. Não podia andar. Meu filho antes de entrar na sala do procedimento falou para mim: ‘papai, eu queria dormir com o senhor’. Dói”. 

Após a morte do menino, o promotor da cidade Vinícius Ribeiro de Souza chegou a abrir uma investigação, e oficiou a delegacia de Manicoré e a Secretaria Municipal de Saúde para saber quais os procedimentos seriam adotados sobre o caso.

“O pessoal da delegacia disse que todo o material está nas mãos do promotor. E, desde então, eles só falaram isso. A gente não sabe como está. Estamos desesperados, perdemos o nosso filho por uma grande negligência médica. Nosso filho foi morto. E agora está nesse negócio”.

G1 entrou em contato com a Polícia Civil e Ministério Público sobre o caso. Em nota, a PC respondeu que as informações do caso são de responsabilidade do MP. Já o MP, até a publicação do material, não respondeu os questionamentos.

Questionado, o Tribunal de Justiça do Amazonas informou que processo nº. 0600393-34.2021.8.04.5600 tramita na 1ª. Vara da Comarca de Manicoré e, atualmente encontra-se em fase de diligências a pedido do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE/AM).

Processo administrativo

Na época do caso, a Secretaria de Saúde do Amazonas (SES) também disse que entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Manicoré, responsável pela gestão do hospital onde ocorreu o fato, para apurar as circunstância do atendimento dado a criança.

A SES disse que iria acompanhar o processo. Em nota, o órgão diz que acompanhou o processo administrativo aberto pela Secretaria Municipal de Manicoré, responsável pela contratação do médico, sobre as circunstâncias do atendimento e a conduta médica. O profissional de saúde foi afastado imediatamente das funções na unidade hospitalar.

Em resposta ao governo, a Secretaria da Saúde de Manicoré informou que instaurou uma comissão para avaliar a conduta do médico. Ao G1, a secretária de saúde do município, Adriana Moreira, disse que a comissão montada para avaliar a conduta do médico ainda não entregou o relatório final do caso.

“O médico ainda não retornou ao trabalho e a equipe ainda não me passou o parecer. Eles estavam em conclusão. Infelizmente, esses processos acabam sendo demorados, porque tem que conversar com a médica que estava de plantão, a anestesista, e eles não estavam conseguindo contato. Ela não trabalha mais no município, e eu soube que essa era a única questão que precisavam fechar”.

O Conselho Regional de Medicina também havia determinado abertura de sindicância para apurar possíveis irregularidade no procedimento médico. No entanto, ao G1, disse que não poderia informar sobre o resultado do processo administrativo, já que o mesmo tramita em sigilo processual, nos termos do Código de Processo Ético-Profissional.

Internado após quebrar braço

Conforme a ficha do Hospital Hamilton Cidade, o menino deu entrada no dia 18 de fevereiro com o braço quebrado. Dois dias depois, ele foi submetido a um procedimento cirúrgico seguido de colocação de gesso.

A mãe disse que a anestesista de plantão não foi chamada para acompanhar a cirurgia e que o médico ortopedista decidiu pesquisar na internet a quantidade de anestesia que deveria administrar.

Consta no documento do hospital que três anestésicos foram administrados, e que, na sequência, a criança teve uma parada cardíaca. O menino ainda resistiu por 12 horas na UTI.

Na manhã do dia 21, a anestesista foi até a criança, que já se encontrava em estado grave e, como consta no relatório da médica, não foi possível reverter o quadro. No atestado de óbito, constam parada cardíaca, efeitos adversos a anestesia e pneumonia provocada por aspiração de alimento para o pulmão.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.