Os acreanos Deibson Nascimento e RogĂ©rio Mendonça, que há quase 50 dias driblam as forças de segurança no Nordeste brasileiro apĂłs uma fuga espetacular e inĂ©dita do presĂdio federal de MossorĂł, no Rio Grande do Norte, parecem carregar os mesmos encantos e feitiços de enganação da polĂcia de outro acreano famoso, o matador de indĂgenas conhecido por Pedro BilĂł, uma referĂŞncia Ă s faculdades mentais claudicante de um homem que dizia matar indĂgenas nas chamadas “correrias” nas aldeias com a justificativa de que eles nĂŁo eram batizados e por isso nĂŁo eram gente, enganou a polĂcia por mais de duas dĂ©cadas.
Ele conseguiu driblar a polĂcia durante tanto tempo refugiado nos seringais acreanos na regiĂŁo de FeijĂł, Ă s margens do Rio Envira e afluentes, com seus feitiços que, reza a lenda difundida pelos prĂłprios indĂgenas sobreviventes Ă s “correrias”, como eram chamados os ataques Ă s aldeias nas noites de matanças, era capaz de se esconder atrás de um talo de capim ou de transformar em bichos comuns Ă quelas florestas – pacas, tatuas, cotias, veados e aves. Com o tempo, a PolĂcia Federal, que conseguiu prender o matador em 1976, descobriu-se que, se tinha ou nĂŁo tais feitiços e encantos, BilĂł conseguia escapar Ă perseguição policial garças a uma rede de informações de seringalistas interessados na desocupação das terras e, claro, na eliminação dos povos indĂgenas. BilĂł morreu em 1980, de câncer.

Pedro BilĂł era conhecido como ‘matador de indĂgena’/Foto: Reprodução
Se tem ou nĂŁo conhecimento das feitiçarias do conterrâneo ilustre, os fugitivos Deibson Nascimento e RogĂ©rio Mendonça estariam utilizando os mesmos estratagemas do matador de indĂgenas para escapar do cerco policial há quase 50 dias. Como no caso de BilĂł durante os mais de 20 anos, a polĂcia nĂŁo tem qualquer pista sobre a localização dos fugitivos e já há o registro do inĂcio de desmobilização nas operações de caçada. Mais uma vez, como no caso de BilĂł, há informações de que policiais que atuam na força-tarefa já ficaram a menos de trĂŞs metros dos criminosos.
O episĂłdio foi relatado por um casal rendido pela dupla em 16 de março, quando as buscas chegavam ao 10Âş dia. Segundo o depoimento, os criminosos invadiram a casa armados com pedaços de madeira. Exigiram que as vĂtimas fizessem jantar, pediram celulares, efetuaram ligações e viram TV. Os fugitivos permaneceram no local por aproximadamente quatro horas.
Ao casal, chegaram a relatar que quase haviam sido pegos na noite anterior, quando estavam escondidos em uma região de mata fechada e o helicóptero passou voando baixo. Contaram que precisaram fugir deixando uma camiseta e um lençol para trás. Os itens chegaram a ser apreendidos pelos investigadores.
Ainda de acordo com o testemunho do casal, no momento em que os fugitivos assistiam Ă televisĂŁo deitados na varanda, por volta de 0h, um carro da polĂcia penal passou na rua e abordou um grupo de moradores. Assustados, Deibson Nascimento e RogĂ©rio Mendonça mandaram o casal se trancar na casa e escaparam em direção Ă mata.

Fugitivos de Mossoró/Foto: Reprodução
Em quase 50 dias de buscas infrutĂferas, o MinistĂ©rio da Justiça se prepara para desmobilizar os integrantes da Força Nacional que atuam na caçada aos dois fugitivos. Os 111 agentes deverĂŁo voltar Ă s suas atribuições de origem já na prĂłxima semana, quando se encerra a prorrogação de 10 dias autorizada pelo ministro Ricardo Lewandowski.
Desde 19 de fevereiro, homens da Força Nacional fazem varreduras nas matas e, tambĂ©m, fecham o cerco em rodovias com objetivo de impedir que Deibson Nascimento e RogĂ©rio Mendonça rompam o perĂmetro das buscas no Rio Grande do Norte. Apenas em diárias, o valor pago pelo MJ aos agentes já supera R$ 1,1 milhĂŁo.
As demais forças de segurança, tanto no âmbito federal quanto estadual, continuarĂŁo a caçada em solo potiguar. E uma outra frente, tocada pela PolĂcia Federal, ganha cada vez mais relevância.


