Durante muito tempo, parte da comunidade acadêmica europeia sustentou a ideia de que as condições ambientais da Amazônia impediam o surgimento de sociedades complexas. No entanto, novas pesquisas arqueológicas têm demonstrado que essa interpretação estava baseada na dificuldade de identificar vestígios materiais preservados na floresta.
Diferentemente de civilizações como os Incas e os Maias, que construíram cidades em pedra, muitos povos originários amazônicos utilizavam materiais como terra, madeira e palha. Esses elementos são mais vulneráveis à ação do tempo e da própria floresta, o que contribuiu para que grande parte das evidências desaparecesse ou ficasse escondida sob a vegetação.

Uso da tecnologia LiDAR permite identificar estruturas antigas ocultas sob a vegetação densa da floresta/ Foto: Reprodução
Nos últimos anos, porém, uma série de avanços tecnológicos tem permitido uma nova leitura da história do bioma. Entre as ferramentas mais utilizadas está o LiDAR, sigla para Light Detection and Ranging, um sistema que utiliza pulsos de laser disparados por aeronaves para mapear o relevo do solo mesmo em áreas cobertas por floresta densa.
A tecnologia funciona como uma espécie de “raio-X” do terreno. Os feixes de laser atravessam as frestas da copa das árvores e registram o formato do solo, revelando estruturas que não são visíveis a olho nu.
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Para os pesquisadores, o impacto do LiDAR na arqueologia amazônica tem sido comparado à importância da datação por Carbono-14 para o estudo de sociedades antigas. Com esse recurso, cientistas conseguem identificar vestígios de ocupação humana em áreas antes consideradas praticamente inacessíveis.
Um dos exemplos é o projeto Amazônia Revelada, que já escaneou mais de 1,6 mil quilômetros quadrados de floresta. Os levantamentos identificaram redes de estradas, valas, geoglifos e antigas aldeias que podem ter abrigado milhares de pessoas há mais de 2.500 anos.
Além da tecnologia, outro fator que tem impulsionado as pesquisas é o aumento de investimentos em estudos científicos voltados para a região, incluindo iniciativas como o programa Amazônia+10.
As pesquisas também contam com participação crescente de povos indígenas. Em muitas áreas, as comunidades autorizam e acompanham os trabalhos arqueológicos, reconhecendo na ciência uma ferramenta importante para demonstrar a presença histórica e o manejo tradicional da floresta.
De acordo com pesquisadores, as descobertas ajudam a contestar a ideia de que a Amazônia teria sido um “vazio demográfico” no passado. Ao mesmo tempo, reforçam evidências de que a região foi ocupada por sociedades organizadas, com sistemas de manejo ambiental e redes de circulação muito antes da chegada dos europeus.
