Um erro de condução e uma crise desnecessária no Palácio Rio Branco

O Acre, como se sabe, possui um ecossistema político e midiático profundamente interligado

Mailza
📸 Foto Destaque: Criada por IA

A crise recente envolvendo a governadora Mailza Assis e a tentativa de mudança no comando da comunicação institucional do governo do Acre revela muito mais do que um episódio administrativo, expõe tensões típicas de transição de poder, fragilidades na condução política e, sobretudo, os riscos da forma como decisões são executadas.

É inquestionável que Mailza Assis, agora investida plenamente no cargo, possui prerrogativa legal e política para montar sua equipe. Isso inclui, naturalmente, substituir nomes estratégicos, como o comando da Secretaria de Comunicação. Trata-se de uma prática comum em qualquer governo que busca imprimir identidade própria.

No entanto, o ponto crítico não está na decisão em si, mas na forma como ela foi conduzida.

A exposição dos jornalistas Astério Moreira e Nayara Lessa, profissionais reconhecidos no meio, gerou uma reação imediata e intensa. Em ambientes políticos já tensionados, episódios como esse ganham proporções maiores porque tocam em valores sensíveis: respeito, ética profissional e dignidade no trato humano.

Demissões fazem parte da dinâmica administrativa. Mas há um protocolo tácito, quase um código de honra, que rege essas situações: comunicação direta, reconhecimento pelos serviços prestados e discrição. Quando isso é rompido, o desgaste deixa de ser apenas interno e passa a contaminar a opinião pública.

O Acre, como se sabe, possui um ecossistema político e midiático profundamente interligado. O episódio rapidamente extrapolou os bastidores e mobilizou jornalistas, lideranças políticas e formadores de opinião.

De um lado, surgiram críticas à governadora pela condução do processo. De outro, houve quem defendesse seu direito de reorganizar a equipe. No meio disso, um elemento perigoso começou a ganhar força: a narrativa de crise permanente.

E crise, na política, quando não é contida rapidamente, vira combustível para adversários e desgaste contínuo para quem governa.

Há um ponto central que não pode ser ignorado: todo governo, cedo ou tarde, se resume à figura de quem o lidera.

Independentemente de quem aconselhou, executou ou articulou a tentativa de mudança, o ônus recai integralmente sobre Mailza Assis. Na prática política, não existe terceirização de responsabilidade.

É ela quem responderá pelos acertos e, principalmente, pelos erros.

Outro elemento que emergiu nesse contexto foi a insistência em associar o ex-governador Gladson Cameli a decisões do atual governo.

Esse tipo de narrativa, ainda que muitas vezes baseada em percepções ou especulações, tem alto potencial de desgaste. Alimenta desconfiança, fragiliza a autoridade da atual gestora e cria a impressão de um governo sem autonomia plena.

Em política, percepção frequentemente pesa tanto quanto a realidade.

Talvez o aspecto mais preocupante desse episódio seja a postura de setores que parecem apostar no agravamento da crise.

A lógica do “quanto pior, melhor” não atinge apenas o governo, ela atinge diretamente a população. Um governo enfraquecido, acuado e sob pressão constante tem menor capacidade de responder aos problemas estruturais do Estado.

E o Acre, como bem sabemos, não carece de desafios.

Do ponto de vista político e administrativo, a melhor saída neste momento é clara: encerrar o assunto.

Isso não significa ignorar o ocorrido, mas sim evitar sua prolongação desnecessária. Crises pequenas, quando mal geridas, tornam-se grandes. Crises grandes, quando alimentadas, tornam-se crônicas.

Para Mailza Assis, o caminho mais inteligente é retomar o controle da narrativa, reorganizar internamente sua equipe e focar na entrega de resultados concretos à população.

O episódio deixa uma lição importante: governar não é apenas exercer poder, mas saber como exercê-lo.

A autoridade legitima decisões.
A sensibilidade legitima lideranças.

Se conseguir equilibrar esses dois elementos, Mailza Assis terá condições de superar não apenas essa crise, mas outras que inevitavelmente surgirão.

Porque, no fim, como bem se diz na política, e na vida pública, todos estão no mesmo barco. E ninguém se beneficia quando ele balança além do necessário.

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