“Serei a primeira mulher a disputar o cargo de governadora pelo nosso estado”, diz pré-candidata da Rede, Janaína Furtado


Janaína Furtado defende uma “nova política” cujos pilares básicos são o desenvolvimento econômico, a inclusão social, equidade e conservação ambiental

JORGE NATAL, PARA CONTILNET

É bem verdade que os gregos, que se fizeram notar no mundo, não sabiam de tudo. Algumas de suas teorias, à luz dos dias atuais ou dos fatos concretos, revelaram-se furadas. Mas, em política, apesar dos mais de 3.000 anos que nos separam de seus ensinamentos, eles eram mestres. Foram os primeiros humanos a falar em democracia, em felicidade e em política como uma ação de servir e fazer o bem às pessoas – e jamais o contrário.

No pensamento grego, a política é a prática de promoção do bem à Polis, à cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. Daí o termo político para designar, mesmo nos dias atuais, aos que se dedicam à causa nobre de cuidar da cidade e de sua população, ensinava o saudoso escritor Rubem Alves.

Janaína Araújo Furtado Accioly/Foto: reprodução

É dele o conceito de cidades sustentáveis, que seriam aquelas que adotam uma série de práticas eficientes voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população, conciliando desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Seriam locais bem planejados e eticamente administrados.

Localizado no meio oeste do estado e cortado por dois rios, Tarauacá é um município diferente. Conhecido pela hospitalidade e alegria de sua gente, já foi uma das regiões mais ricas nos tempo áureos da borracha. Também é a terra do ex-senador Altervir Leal e de um dos políticos mais respeitado do Acre, que teve 40 anos de vida pública ininterrupta, inclusive exercendo um mandato de governador e outro de senador, Nabor Júnior.

É em Tarauacá que vive a vereadora Janaína Araújo Furtado Accioly, de 30 anos. Nascida no Seringal Conceição, no Rio Muru e criada no mesmo local até os 14 anos de idade, ela é uma das principais revelações da política local. Formada em Pedagogia pela Universidade de Brasília (UnB), a professora é o que se pode chamar de pré-candidata qualificada e disposta a promover um debate sobre o futuro do Acre e de seu povo. “Precisamos pensar um estado do século XXI”, costuma dizer.

Oriunda de uma família de políticos tradicionais, Janaína acredita e defende uma “nova política” cujos pilares básicos são o desenvolvimento econômico, a inclusão social, equidade e a conservação ambiental. “A Rede está conectada com uma atmosfera de mudança que existe no cenário político”, afirma a pré-candidata, para quem a população deve ser protagonista dos vindouros processos desencadeados. “O Acre pode ser um estado sustentável e com um povo feliz”.

Em sua opinião, a ex-ministra e pré-candidata a presidência da República pela legenda, Marina Silva, é uma das poucas figuras políticas que inspira credibilidade. Além disso, prossegue ela, Marina desponta como mantenedora de utopias, algo raro nos dias de hoje. “Ela é o que resta das nossas consciências”, ressalta a vereadora.

Na sala de sua casa e amamentando um bebê de apenas três meses, ela conversou com a equipe da ContilNet e falou sobre sustentabilidade, ética, participação das mulheres, felicidade e aquilo que mais gosta, que é a política propriamente dita. Veja os principais trechos:

ContilNet– A senhora é candidata a governadora pela Rede Sustentabilidade?

Janaína Furtado– A Rede me convidou para ser candidata e eu aceitei o desafio. É uma missão que recebi dos meus colegas de partido. Eu acredito que uma mulher pode participar desse meio político, ou seja, concorrendo a cargos majoritários. Serei a primeira mulher a disputar esse cargo em nosso estado. Eu não estou preocupada com eleição em si, mas de fazer um debate que, ao longo das décadas, foi negligenciado pelos políticos tradicionais. Somos um partido pequeno, mas somos uma legenda nova e temos aceitação na sociedade, justamente porque as pessoas querem mudanças, uma nova forma de se fazer política.

E o que é essa nova política?

Os partidos tradicionais nivelaram a política por baixo. Em que pese ser uma atividade nobre, a vida pública tem se tornado um grande desafio. Porque a atividade é carregada de muito descrédito. Os casos que estão diariamente na mídia falam por si mesmos. O PSDB e o PT fizeram governos de erros e acertos. O PT com muito mais erros. Mas essa polarização já se exauriu. O Brasil é maior que isso. O século XXI exige uma nova postura dos líderes, dos partidos e das instituições. Então vamos fazer o debate que os partidos tradicionais abandonaram no cotidiano. Vamos discutir a vida das pessoas, a esperança, a leveza que falta na política e os sonhos de termos uma sociedade livre, justa, solidária e fraterna. Precisamos exercer a política com o seu real propósito, que é o de servir. Isso é o que eu concebo como nova política. E é isso que nós queremos mostrar na prática, não somente na retórica.

Janaina é pré-candidata ao governo do estado/Foto: reprodução

Como a senhora analisa o atual cenário político brasileiro?

Penso que não é o momento para ficarmos desolados ou eufóricos. É momento para ficarmos desolados e eufóricos ao mesmo tempo. Não podemos negar a frustração com o atual cenário político brasileiro: corrupção, inflação em alta, ineficiência do governo federal, juros altos, um Parlamento sem credibilidade, dentre outros fatores negativos quem permeiam a vida pública nacional. Mas é momento para ficarmos esperançosos, pois vem surgindo uma nova consciência que fala para fora e, certamente, com a união da Justiça, dos políticos de bem e da sociedade civil, essa união irá apontar e construir novos horizontes para a nação. Chegamos ao fim de mais um ciclo, onde uma promessa de governo popular demonstrou-se tão prejudicial quanto os quase 500 anos que o antecederam, ou ainda mais, pois, além da manutenção das velhas práticas políticas, que oneram a nação como um todo, e põem abaixo as possibilidades de um Brasil moderno e focado no futuro. Aqueles genuinamente preocupados com o bem-estar social foram sequestrados em nome de um projeto de poder, que não é democrático, ainda que se valha dos mecanismos da democracia para se manter no governo. Tudo o que vivemos hoje é fruto desta história brasileira, de poucos avanços frente às necessidades e possibilidades do País. Precisamos acreditar nas instituições, mas quase todas elas estão impregnadas pela velha política. Mesmo que um ou outro setor avance, o conjunto não prospera, por isso se faz necessário um conjunto de reformas, que diminuam o livre poder das instituições, e as submetam mais à vontade pública. Graças a Deus, existe um processo de transformação em curso no Brasil. A Lava Jato está fazendo as reformas que o Brasil tanto necessita.

Como é ser candidata num momento tão difícil como nos dias atuais?

É verdade que existe um descrédito na classe política. Mas é preciso acredita e confiar, pois é através da politica institucional que podemos mudar. Aqui, na Câmara de Vereadores, somos nós que estamos interferindo diretamente na vida da população. O parâmetro de conduta do gestor público é a lei. O Art. 37 da Constituição Federal, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei 8.666/93 [licitações e contratos] são mecanismos jurídicos e institucionais que dão base a uma gestão ética, eficiente e transparente. É preciso haver um diálogo permanente com toda a sociedade: a juventude, o homem do campo, associações de moradores, empresariado, instituições e todos os setores mobilizados. Dar eficiência à máquina pública a partir de uma maior presença dos cidadãos nas tomadas de decisão, e no controle dos gastos públicos. O controle social é a melhor forma de fazer uma administração eficiente e transparente.

Na última pesquisa, a senhora ficou com 2% em todo estado e quase 20% em Tarauacá. Como analisa esses números?

Eu ainda estou refletindo sobre esses números. Primeiro, porque eu não achava que iriam me incluir naquela aferição. Sinto-me feliz, honrada com esses 19,26% que obtive no meu município. Isso é o resultado do trabalho do nosso mandato, tenho certeza disso. Isso me deixou mais energizada para seguir em frente, levando o nome de Tarauacá e das mulheres. Vou me esforçar muito para corresponder, dentro das minhas limitações, que é dispor de uma logística de campanha majoritária. Tenho uma filha de apenas três meses que nasceu de um parto cesariano. Mas não será nenhum sacrifício porque eu amo isso. Gosto de conversar com as pessoas, de ouvi-las e estabelecer vínculos políticos ou de amizade. Vou aprender muito
Para a senhora, desenvolvimento deve sempre estar acompanhado de equidade. Com base nisso, o que propõe para desenvolver o estado e melhorar a vida das pessoas?

Propomos, antes de tudo, ouvir os cidadãos, e colocar as pré-propostas da Rede à avaliação das pessoas. Pensamos hoje em orçamento participativo, em um conselho de assessoramento do governo com a participação da sociedade civil organizada. Queremos saber do conjunto das pessoas como elas veem o estado para ser mais bem administrado. Queremos dividir responsabilidades e construir uma cultura de empoderamento do cidadão comum. A sociedade deve ser protagonista de todas as transformações. Estudaremos o zoneamento ecológico e econômico para definirmos o que é vocacional para cada região. A região que compreende os municípios de Senador Guiomard, Plácido de Castro e Capixaba, por exemplo, tem vocação para o a pecuária e produção de grãos em alta escala, enquanto a nossa região, que possui uma topográfica acidentada, tem mais vocação para a agricultura familiar, a fruticultura, a agroindústria. O governo dito “da floresta” não conseguiu efetivamente estimular práticas sustentáveis da economia verde. Se a Natura possui contratos com populações extrativistas em Carauari, interior do Amazonas, por que não em nossa região? Identificaremos o potencial e outras formas de exploração econômica da floresta, de forma sustentável, mas é preciso que o poder público compre a ideia e as instituições de apoio, de ensino e pesquisa, além do fomento de crédito, também direcionem seus esforços neste mesmo sentido. Também nos faltam melhores análises de cenários possíveis, de acesso aos mercados. Muito mais do que uma estrada, que também é importante, precisamos construir uma visão conjunta que aponte no rumo deste futuro possível e desejado.

De Tarauacá, Janaina é o nome escolhido pela Rede na disputa ao governo do estado/Foto: reprodução

Juntamente com o PSDB de SP, a administração petista no Acre é a mais longeva do País. Como a senhora analisa a atual administração petista?

Possui acertos importantes e erros insanáveis. Submete o povo à vontade dos seus senhores, os governantes, perpetuando a cultura do patrão, tão impregnada no nosso inconsciente coletivo e, ao mesmo tempo, tão nefasto para o crescimento do povo enquanto cidadão. Continuam com uma velha prática clientelista, utilizando-se de todos os expedientes possíveis para se manter no poder. Beneficiaram-se de empréstimos milionários para a instalação de infraestruturas duvidosas. Onde temos uma BR que na qual foram gastos quase R$ 2 bilhões, e que está em péssimas condições. Temos um grande frigorífico para peixes, mas não temos a quantidade de peixes necessários para pô-lo em funcionamento. Distribuem kits de casa de farinha e outras aparentes benesses, mas não propõe um modelo mais empreendedor, apesar do atual slogan de governo, sinal de que não é assim tão parceiro. Um governo autoritário, que não está aberto ao diálogo, que faz chantagem emocional para assumir o papel dos bons, enquanto qualquer discordância, até mesmo uma observação ou sugestão de melhoria é vista com maus olhos. Um governo que, apesar do discurso, não promove um crescimento autônomo do Estado, sempre dependente de verbas e financiamento federais, e agora de recursos internacionais, como os disponibilizados por Alemanha e Noruega através do pagamento por serviços ambientais, isto é, vendemos a preservação de nossas florestas para que os países altamente industrializados continuem degradando o planeta, nossa casa comum. Os sucessivos governos do PT legaram inúmeros problemas ao povo acreano, causados pelo o uso da maquina pública para beneficiar outrem, o controle da mídia, de instituições como Assembleia Legislativa, setores do Judiciário e Ministério Público. Vivemos no Estado do medo, onde a violência impera. A juventude não tem perspectivas e está abandonada à própria sorte nas periferias. Jamais existiu um projeto de Estado, apenas um projeto de poder. O PT já deu a sua contribuição.

É possível conciliar ética e política?

Não só é possível como necessário. Imprescindível, diria. Os valores estão invertidos ao ponto de a ética ser vista como uma virtude. E não é. Penso que ética deve ser uma valor permanente e inegociável na vida do indivíduo, não só do político, mas, sobretudo, porque ele está lidando com o que é público. Tem uma máxima que eu costumo repetir que é a seguinte: se os homens e mulheres de bem não se manifestarem, os mal-intencionados irão tomar conta da política. A política só é realmente possível, e somente trará os resultados que se espera dela, se for protagonizada por pessoas desapegadas do poder, com forte propósito de contribuição temporária no exercício de governar. Ainda estamos muito longe disso. Na nossa região a política sempre esteve muito mais próxima do “se servir” do que do “servir”. E temos um novo caminho a ser percorrido, sobretudo hoje com uma maior participação e controle do cidadão sobre os atos dos governantes, para que os supostos donos do poder percebam de onde realmente advém este, que é do povo. Somente com transparência nas contas públicas e através da cobrança, do olhar atento do cidadão, é que o político aprenderá a se comportar com ética na política.

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