Com posse de Trump, embaixadora dos EUA no Brasil irá embora sem ter conseguido ‘ressuscitar’ o Zé Carioca

Saída de Bagley aumenta incertezas sobre como ficarão relações entre EUA e Brasil

Minutos depois de desembarcar, na madrugada do dia 1º de fevereiro de 2023, no aeroporto de Brasília, para assumir a Embaixada dos Estados UnidosElizabeth Frawley Bagley declarou:

— O Brasil não tem melhor parceiro do que os Estados Unidos.

Naquele momento, a empresária, advogada, ativista do Partido Democrata e diplomata veterana chegava ao país com a missão de inaugurar uma nova era nas relações entre Brasil e EUA, abaladas durante parte da gestão de Jair Bolsonaro. Até então, Bolsonaro sempre deixou claro que, para ele, a melhor pessoa para assumir a Casa Branca seria Donald Trump, e não Joe Biden.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe cartas credenciais da embaixadora Elizabeth Bagley — Foto: Ricardo Stuckert/PR

Bagley chegou ao Brasil dez dias antes de uma reunião entre os presidentes Biden e Luiz Inácio Lula da Silva, em Washington. Agora, com a volta de Trump ao poder no próximo dia 20, a embaixadora está de malas prontas para retornar a seu país.

Sua ausência gera incertezas sobre como ficará a relação entre os dois países: uma eventual demora no envio a Brasília de um novo embaixador americano poderia ser um sinal de indiferença de Trump ao governo Lula e dificultar os contatos em Brasília e Washington.

Aos 73 anos, Bagley trouxe na bagagem várias ideias, parte delas cumprida e outras que ficaram pelo caminho. Ajudou a costurar uma parceria sem precedentes entre os presidentes dos dois maiores países das américas em campos como a defesa da democracia, combate ao aquecimento global, maior atenção aos direitos humanos e até o lançamento de uma frente mundial pelo trabalho decente. Mas falhou em não conseguir ressuscitar o personagem da Disney Zé Carioca, por questões ligadas à propriedade intelectual.

Elizabeth Bagley em Salvador — Foto: Reprodução
Elizabeth Bagley em Salvador — Foto: Reprodução

Zé Carioca foi criado no começo da Segunda Guerra Mundial, quando o então presidente americano Franklin Roosevelt iniciou uma política de boa vizinhança com a América Latina. Um movimento por temor de aproximação do Brasil e outros países da região ao italiano Benito Mussolini e o alemão Adolf Hitler.

Nesse momento, Wall Disney lançava o filme “Fantasia” no Brasil, era gerado um papagaio com chapéu de palha na cabeça, um guarda-chuva em uma mão e um charuto na outra. Mas o personagem tentava convencer o Pato Donald a viver uma vida de malandro, sem trabalhar. Nos dias atuais, precisaria de ajustes em uma versão politicamente correta, além de convencer os produtores a voltar com o personagem.

Nesta sexta, publicou uma mensagem de agredecimento e disse que terá saudades do Brasil.

— A todo o povo brasileiro, obrigado por sua cordialidade, sua hospitalidade, sua parceiria e seu espírito inabalável.

Direto da fonte

Bagley é viúva, tem dois filhos e um neto. Nasceu na pequena cidade de Elmira, no estado de Nova York. Sua última experiência como embaixadora foi nos anos 1990, em Lisboa, Portugal.

Ocupou funções relevantes no Departamento de Estado dos EUA. Ao longo das últimas décadas, foi assessora sênior dos secretários John Kerry, Hillary Clinton e Madeleine Albright e representante dos EUA na Assembleia Geral da ONU.

Encarregada de transmitir a Washington informações de bastidores colhidas em Brasília, ia direto na fonte. Sempre que podia, buscava contatos com membros do alto escalão dos três poderes. E, em Brasília, procurou ampliar os contatos não só entre os meios políticos.

Em um de seus primeiros eventos sociais, a embaixadora ofereceu um jantar, em sua residência, que teve como homenageado o cantor e compositor Gilberto Gil. Estavam presentes figuras ilustres da República, como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso e Cristiano Zanin, o então presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas, e a primeira-dama Janja.

Ela usa as redes sociais para se comunicar com o público. Participava ativamente do grupo de Embaixadoras Mulheres em Brasília e, sempre que podia, ia a todos os eventos, segundo relato da chefe da representação da Suécia em Brasília, Karin Wallensteen.

— É uma embaixadora experiente, proativa e estratégica. Ela é muito acessível e, portanto, sempre uma interlocutora apreciada e procurada — diz Wallensteen.

Embaixadora Elizabeth Bagley ao Pará durante visita ao Pará — Foto: Felipe Menezes/U.S. Embassy Brasilia
Embaixadora Elizabeth Bagley ao Pará durante visita ao Pará — Foto: Felipe Menezes/U.S. Embassy Brasilia

Para o embaixador da França, Emmanuel Lenain, Bagley fará falta em Brasília.

— Elizabeth Bagley é uma colega formidável, de quem sentiremos falta aqui no Brasil. Graças a um valiosa experiência em Portugal, ela possui um conhecimento profundo do universo lusófono. Uma pessoa dedicada, a quem desejo muito sucesso no próximo cargo, onde sei que ela fará a diferença — afirma o diplomata francês.

Não há clareza sobre como ficará a comunicação entre Brasil e EUA com Trump. Hoje, os contatos entre autoridades americanas e brasileiras de alto escalão são frequentes. O assessor para assuntos internacionais do Palácio do Planalto, Celso Amorim, conversa rotineiramente com o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan. Também há diálogo entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Antony Blinken.

Integrantes do governo brasileiro reafirmam que há uma aposta no pragmatismo, que priorizaria uma relação entre dois Estados com uma agenda bastante densa. Para representantes do empresariado brasileiro, Bagley contribuiu para o fortalecimento dessa parceria.

— Com sólidas conexões políticas com a cúpula do Partido Democrata, Bagley uniu sua atuação diplomática a um genuíno interesse pela cultura e arte brasileiras — ressalta o CEO da Amcham, a câmara de comércio americana Abrão Neto.

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