Por que a Literatura clássica incomoda: a tentativa de controle da linguagem e da história

Esta semana, clássicos como Cem anos de solidão e o Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marques, foram incluídos numa lista que já alcança o número de 6.870 obras censuradas nos Estados Unidos, isto segundo relatório da PEN América, uma organização que atua em defesa de escritores e da literatura.

A censura de livros é sem dúvida uma das grandes ironias da história cultural: obras que pelos seus relatos humanos, históricos e sociais, resistiram ao tempo, que definiram épocas e moldaram o pensamento e incentivaram o amor pela leitura, passam a ser, em pleno século XXI, alvos de censura e banimento. A literatura clássica, por sua própria natureza, deveria ser celebrada como o alicerce da nossa herança intelectual e cultural. No entanto, em ciclos recorrentes, sociedades, ou quem sabe, grupos influentes dentro delas, tentam barrar o acesso a esses textos fundamentais. A razão para esta persistente hostilidade pode não estar em falhas artísticas ou até mesmo numa eventual irrelevância, mas sim no poder intrínseco e “subversivo” que se acredita que estas obras possuem.

Seriam estas obras uma ameaça direta ao status quo, expondo hipocrisias, questionando estruturas de poder e forçando a reflexão desconfortável que a conformidade social busca evitar? É necessário ler. Refletir. Pensar. Resistir.

Selene Fartolino
Advogada e vice-presidente da Associação Acreana dos Advogados – Asad

Outro clássico não raramente censurado é 1984, de George Orwell. Banido em diversos contextos por sua crítica contundente ao socialismo soviético, o livro é, ironicamente, temido por qualquer estrutura de controle que dependa da manipulação da linguagem e da história. O livro é um manual de resistência, ele arma o cidadão com a capacidade de identificar a “novilíngua” e o “duplipensar”, tornando-o um leitor e um pensador mais perigoso para qualquer autoridade que exija obediência cega. Neste contexto, o livro não apenas faz uma crítica a um regime passado, mas oferece um vocabulário como vale de transporte para a liberdade de pensamento e expressão que não se exaure com o tempo.

Além dos questionamentos das estruturas de poder e controle das massas que a literatura clássica revelaria, as mesmas são frequentemente barradas por sua exploração sem verniz da complexidade da condição humana, que abordam questões como a moral, religião, realismo mágico, o que inevitavelmente choca sensibilidades conservadoras. Obras clássicas não oferecem conforto moral; elas oferecem um espelho para as contradições da sociedade e as mazelas do homem real, abordando temas como sexualidade, rebeldia, violência e a hipocrisia adulta.

Perigosamente, a onda de banimento de livros tem se concentrado em obras que desafiam narrativas históricas e identitárias estabelecidas, especialmente em ambientes escolares. A censura moderna, impulsionada por polarizações políticas, visa proteger um senso de “conforto histórico” ao banir textos que abordam raça, racismo, feminismo, etc. Ao banir clássicos, as sociedades tentam silenciar o registro da injustiça e impedir a confrontação com a diversidade e a complexidade da história humana.

Mas não é apenas isso. Censurar e banir livros clássicos, autores renomados, humanos, livres, seria uma tentativa de controlar a manifestação do pensamento, da linguagem e da própria história? Os clássicos são incômodos, ou como muitos diriam: perigosos, não por serem obsoletos ou porque contam histórias ultrapassadas, mas porque são profundamente relevantes. Eles nos ensinam que as questões de poder, moralidade e identidade são cíclicas e que a luta pela liberdade de pensamento é constante e deve se manter firme em toda época.

As sociedades verdadeiramente democráticas são as que respeitam a liberdade de pensamento e de expressão mesmo que incomodem. Banir ou censurar autores e os clássicos da literatura seria mais uma prova de que seu legado e a capacidade que os mesmos têm de nos fazer pensar, sentir e resistir, e que permanecem mais vivos do que nunca.

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