O desafio de levar o “pernambucanês” ao Oscar: como traduzir as gírias de ‘O Agente Secreto’

Tradutores de 'O Agente Secreto' revelam como adaptaram gírias nordestinas e expressões de época para conquistar o público estrangeiro

O desafio de levar o "pernambucanês" ao Oscar: como traduzir as gírias de 'O Agente Secreto'
Foto: Laura Castor/Divulgação

O filme “O Agente Secreto”, ambientado no Recife da década de 70, não é apenas um sucesso de crítica, mas um verdadeiro quebra-cabeça linguístico. Para chegar ao Festival de Cannes e à corrida pelo Oscar neste domingo (15), a obra de Kleber Mendonça Filho passou por um rigoroso processo de tradução.

O desafio? Fazer com que termos como “pirraça”, “mambembe” e “raparigueiro” fizessem sentido para quem nunca pisou no Nordeste brasileiro.

A estratégia por trás das gírias

De acordo com os profissionais responsáveis pelas legendas em inglês e francês, a missão foi além de trocar palavras; foi necessário traduzir intenções culturais. O termo “pirraça”, que abre o longa, foi adaptado como mischief (travessura), mas com a carga política de “trambicagem” e corrupção que o contexto da época exigia.

Já para a clássica “dor de corno”, a saída foi utilizar you’ve been made a cuckold (você foi feito de chifrudo), garantindo que a sofrência do locutor de rádio fosse compreendida em qualquer lugar do globo.

O que permaneceu em português

Algumas expressões foram mantidas propositalmente no original para preservar a identidade nacional. Palavras como:

  • Macumba

  • Coxinha

  • Dona (como forma de tratamento)

Segundo o diretor, essas escolhas servem para manter o “corpo estranho” e a autenticidade da obra, forçando o espectador estrangeiro a mergulhar na realidade local sem filtros excessivos.

Adaptações curiosas (Glossário)

Para que o filme funcionasse nos editais internacionais e nas premiações, expressões típicas ganharam novas roupagens:

  • Bigu: Virou ride (carona).

  • Danosse: Foi adaptado para crissakes (pelo amor de Deus).

  • Raparigueiro: Traduzido como whore lover (amante de prostitutas).

  • Mai rapaz: Ficou como goodness me (valha-me Deus).

Mediação Cultural

Para Muriel Pérez, que adaptou o roteiro para o francês, o trabalho foi ser uma “ponte”. Ela precisou explicar desde a presença de tubarões em Pernambuco até o significado da La Ursa no Carnaval, garantindo que o público de fora entendesse o preconceito regional e as nuances sociais do Brasil de 1977.

“O Agente Secreto” chega à cerimônia do Oscar com quatro indicações, provando que, mesmo com as barreiras da língua, a história pernambucana conseguiu se fazer entender universalmente.

Fonte: g1
Redigido por ContilNet

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