Há notícias que deveriam ser simples. Um homem descobre que vai ser pai. Sorri. Conta aos amigos. Celebra. A vida segue seu curso natural, como sempre foi nas comunidades onde a alegria costuma dividir espaço com a luta diária.
Foi o que aconteceu com Rafael Barbosa, o Faixa — humorista acreano, filho da Baixada, região historicamente marcada pela pobreza, mas também por uma dignidade silenciosa. Pai presente, segundo ele próprio mostra nas redes, homem que cria a filha, trabalhador da própria imagem e do próprio riso. Ao anunciar que sua companheira está grávida, o que deveria ser bênção virou espetáculo.

Tácio Júnior é jornalista e assessor de comunicação | Foto: Cedida
A publicação no site ContilNet bastou para que se abrisse o que chamamos, com pesar, de “Tribunal da Internet”. Comentários cruéis, preconceituosos, desumanizantes. Gente que nunca dividiu uma mesa com ele, que nunca viu sua rotina, que nada sabe de suas responsabilidades, mas que se sente autorizada a julgar. Sem processo. Sem escuta. Sem humanidade.
Lembro de Umberto Eco e sua frase dura sobre a internet ter dado voz a legiões de imbecis. Não porque toda crítica seja ilegítima, mas porque há uma diferença abissal entre opinião e agressão. Entre debate e linchamento simbólico.
Zygmunt Bauman já alertava sobre relações líquidas, frágeis, descartáveis. Na modernidade digital, o outro virou avatar. E quando o outro deixa de ser pessoa, fica fácil atacar. Fica fácil transformar uma gravidez — que deveria ser celebração íntima — em palco para frustrações coletivas.
Há algo profundamente injusto quando um homem pobre da periferia é tratado como caricatura social antes mesmo de ser reconhecido como pai. E há algo ainda mais grave quando o ódio atinge uma mulher grávida e uma criança que sequer nasceu.
Não é sobre blindar figuras públicas de críticas. É sobre lembrar que, antes do personagem, existe um ser humano. Antes do post, existe uma família. Antes do comentário, existe consciência — ou deveria existir.
Talvez o verdadeiro teste de maturidade de uma sociedade não esteja em como ela reage aos escândalos, mas em como reage às alegrias simples. Se nem a notícia de uma criança a caminho escapa do desprezo, o problema já não é o humorista da Baixada. É a nossa incapacidade coletiva de enxergar humanidade no outro.
E isso, sim, deveria nos preocupar.
*_*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre_*
