Vereadores ouvem mães de crianças com condições genéticas: “Invisíveis”

Mães enfatizam que filhos são considerados invisíveis

Por Matheus Mello, ContilNet 18/06/2026 às 10:19
Mães também pediram fiscalização do cumprimento da Lei Municipal nº 2.305, de 2018. — Foto: Matheus Mello/ContilNet

A sessão da Câmara Municipal de Rio Branco foi suspensa nesta quinta-feira (18) para que vereadores pudessem ouvir mães de crianças com deficiência e condições genéticas que integram o grupo “Mães que se Acolhem”. O coletivo reúne quase 100 famílias de diferentes municípios do Acre.

Representando o grupo, Kerolay Reis, mãe de uma menina de 2 anos, levou aos parlamentares uma série de denúncias relacionadas à falta de acessibilidade, dificuldades no acesso à saúde e ausência de políticas públicas voltadas para crianças com paralisia cerebral, doenças raras, cardiopatias e outras condições de alta complexidade.

Durante a reunião, Kerolay afirmou que as famílias se sentem abandonadas pelo poder público.

“Hoje, na nossa cidade, a gente não tem acessibilidade. A gente não consegue andar com a cadeira de rodas dos nossos filhos nas calçadas. Não conseguimos usar os ônibus porque muitos estão quebrados e é impossível colocar a cadeira dentro deles. Nossos filhos não podem ir à escola porque nada é adaptado”, disse.

Segundo ela, durante anos muitas famílias deixaram de buscar direitos por cansaço, mantendo as crianças restritas ao ambiente doméstico. A mãe afirmou que pretende seguir lutando para garantir oportunidades à filha.

“Minha filha não vai ficar acamada e atrofiando até o fim da vida. Eu vou brigar por ela. Ela vai brincar, vai para a escola e vai poder fazer tudo o que precisa”, afirmou.

Kerolay também destacou o impacto emocional e financeiro enfrentado pelos cuidadores. Segundo ela, muitas mães precisam abandonar o trabalho para se dedicar integralmente aos filhos.

“A gente apenas sobrevive, não vive mais. Mas a culpa não é dos nossos filhos. A culpa é porque não temos ajuda do poder público. Se tivéssemos apoio, poderíamos viver com eles e não apenas sobreviver”, declarou.

Outro ponto levantado foi a forma como as crianças são tratadas pela sociedade. A representante do grupo ressaltou que condições como a paralisia cerebral não devem ser vistas como doenças.

“Nossos filhos não são doentes. Eles têm uma condição. A paralisia cerebral é uma condição e o que podemos fazer é oferecer meios para que eles evoluam”, afirmou.

Vereadores ouvem mães de crianças com condições genéticas: "Invisíveis"

Durante a reunião, Kerolay afirmou que as famílias se sentem abandonadas pelo poder público. — Foto: Matheus Mello/ContilNet

As mães entregaram aos vereadores um documento relatando falhas no atendimento de pacientes de alta complexidade. Entre os problemas apontados estão atrasos na troca de dispositivos de gastrostomia, suspensão do serviço de troca de cânulas de traqueostomia e falta de acompanhamento domiciliar para pacientes dependentes de ventilação mecânica, cardiopatas e crianças acamadas.

De acordo com o grupo, famílias que antes eram acompanhadas pelos programas Melhor em Casa e Emad estariam há meses sem atendimento de fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e acompanhamento médico em domicílio.

Cobrança por inclusão em espaços públicos

As mães também pediram fiscalização do cumprimento da Lei Municipal nº 2.305, de 2018, que determina que pelo menos 20% dos brinquedos instalados em playgrounds públicos e privados de Rio Branco sejam adaptados para crianças com deficiência.

Segundo o grupo, oito anos após a aprovação da norma, ainda não existem espaços públicos adequados para crianças cadeirantes na capital.

“Nossos filhos estão invisíveis aos olhos do poder público”, resumiu Kerolay.

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