IA, geração Z e o novo mercado de trabalho: entre o medo e a oportunidade

Enquanto o mundo discute os avanços da IA, o Brasil convive com um dado alarmante: um em cada cinco jovens entre 18 e 24 anos não estuda nem trabalha

Por Weverton Matias — advogado, empresário  e colunista.

Não é a inteligência artificial que vai tirar seu emprego. É alguém que a domina melhor do que você.

Enquanto o mundo discute os avanços da IA, o Brasil convive com um dado alarmante: um em cada cinco jovens entre 18 e 24 anos não estuda nem trabalha. É a chamada “geração nem-nem”, que corre o risco de ser esmagada entre duas forças implacáveis — a velocidade da transformação digital e a exigência de um mercado que valoriza, cada vez mais, performance, disciplina e adaptabilidade.

E quando olhamos para esse cenário, entendemos por que, para 37% dos líderes empresariais, é mais vantajoso investir em IA do que contratar recém-formados. A tecnologia, afinal, não reclama, não questiona feedback, não falta ao trabalho e entrega resultados com precisão. Isso não é um elogio às máquinas. É um alerta para nós, humanos.

Imagem: iStock

A cada nova geração, cresce a vontade de “começar por cima”, com reconhecimento imediato, sem aceitar as hierarquias naturais do ambiente profissional. Falta, muitas vezes, senso de coletividade, resiliência diante da frustração e disposição para colaborar com quem pensa diferente. A crítica não é moralista. É estrutural. Porque nenhuma máquina ainda consegue substituir as nuances da convivência humana — mas muitos humanos têm se recusado a conviver.

É neste ponto que a IA ganha espaço: não porque seja mais inteligente, mas porque tem se mostrado mais estável do que parte da força de trabalho jovem. E esse é o paradoxo: a geração mais conectada da história pode ser a mais desconectada da realidade do trabalho.

Mas esse futuro não está escrito em pedra. E não é sobre tecnologia. É sobre postura. 77% dos jovens afirmam ter aprendido mais nos seis primeiros meses de emprego do que em toda a faculdade. Isso mostra que a sala de aula é apenas o começo, e que o que realmente diferencia um profissional é sua capacidade de aprender de forma contínua, fora da zona de conforto — inclusive no tempo de tela.

Porque tempo de tela, hoje, é moeda. Pode ser gasto deslizando no Instagram ou investido em aprendizado de verdade: desde uma planilha bem montada até o domínio de ferramentas de IA, passando por soft skills que ainda são (e continuarão sendo) insubstituíveis. A empatia, o trabalho em equipe, a ética, a escuta, a clareza na comunicação.

Um estudo do MIT reforça que a IA, por enquanto, ainda não é financeiramente viável para automatizar a maioria das funções profissionais. Mas isso não significa que o mercado esteja parado. Significa que as melhores oportunidades estarão nas mãos de quem conseguir unir domínio técnico e inteligência humana. De quem não terceiriza sua formação apenas para a universidade. De quem entende que diploma ajuda — mas não resolve.

A inteligência artificial não vai substituir todo mundo. Mas vai aposentar quem se recusa a evoluir. O desafio que temos hoje não é competir com a IA, mas assumir o protagonismo de usá-la como extensão das nossas habilidades.

Mais do que nunca, o mercado busca profissionais que saibam equilibrar a tecnologia com a humanidade, que tenham humildade para aprender, disposição para cooperar e maturidade para ouvir. Porque se a máquina executa com precisão, o humano que pensa, sente e constrói junto é — e continuará sendo — insubstituível.

Aos jovens, especialmente da geração Z: não tenham medo da IA. Tenham medo de desperdiçar tempo com o que não transforma. A oportunidade está aí, aberta, acessível — e ela sorri para quem sabe buscá-la com curiosidade, disciplina e coragem.

 

PUBLICIDADE