Nos bastidores da política acreana, o desafio do momento não é exatamente convencer o eleitor: é montar chapas que sobrevivam à matemática cruel das eleições proporcionais de 2026. Entre cálculos de legenda, acordos que não decolam e partidos esvaziados, o quebra-cabeça eleitoral no estado tem tirado o sono de muita gente.

Enquanto isso, siglas menores observam de longe, algumas sonhando com o chamado “efeito surpresa”/Foto: José Cruz/Agência Brasil
Há nomes conhecidos que correm sério risco de ficar de fora da Câmara dos Deputados mesmo com votação expressiva. Um dos exemplos mais comentados é o da ex-deputada Perpétua Almeida. Ela faz parte da federação PCdoB/PT/PV, que no papel parece robusta, mas na prática ainda não conseguiu montar uma chapa com nomes fortes o suficiente para garantir o quociente eleitoral. Se não houver reforço de peso, e votos, na nominata, Perpétua pode enfrentar a mesma dificuldade que já atingiu políticos tradicionais em eleições recentes: ter voto para se eleger, mas não legenda.
A situação também é delicada em legendas que ainda não conseguiram definir sequer quem será o “puxador” da chapa. O caso mais evidente é o do MDB. Sem nenhum representante na bancada federal do Acre, o partido tenta se reorganizar, mas esbarra na falta de nomes competitivos. A ex-deputada Jéssica Sales seria a aposta natural, mas ela está sendo cortejada para projetos maiores, vice-governadora ou até o Senado, e dificilmente entrará na disputa por uma vaga na Câmara.
Na Assembleia Legislativa, o cenário emedebista é diferente. O partido tem duas cadeiras, Antônia Sales e Tanízio Sá, e pode ganhar reforço de peso com o ex-prefeito Marcus Alexandre, que deve ser um dos mais votados caso confirme a candidatura. Mesmo assim, a força regional não tem se traduzido em uma estratégia nacionalmente competitiva.
Já o PSD do senador Sérgio Petecão vive um momento paradoxal. Foi o partido que mais elegeu prefeitos no país em 2024, mas no Acre a maré não é boa. Sem uma chapa estruturada nem para a Câmara nem para a Aleac, o PSD enfrenta dificuldades internas e externas. Petecão, que sempre foi o principal nome da legenda no estado, aparece nas últimas posições das pesquisas para o Senado, um sinal de que o desgaste chegou e o partido precisa repensar sua rota.
Enquanto isso, siglas menores observam de longe, algumas sonhando com o chamado “efeito surpresa”, outras apenas tentando não desaparecer do mapa. Mas a conta é simples e implacável: sem chapa forte, não há voto que salve. E, no Acre, 2026 promete ser o ano em que muitos políticos vão descobrir isso da forma mais dura.
Vereadores na linha de frente
A dificuldade de alguns partidos em montar chapas competitivas para 2026 chegou a um ponto em que a solução tem sido buscar reforço dentro de casa — literalmente. Siglas que não conseguem atrair nomes de peso para disputar a Assembleia Legislativa ou a Câmara dos Deputados começaram a recorrer aos vereadores da Câmara de Rio Branco para compor as nominatas.
A ideia é simples, mas estratégica: convencer os parlamentares municipais a entrar na disputa, mesmo sem chances reais de vitória, apenas para somar votos à legenda e ajudar na eleição de nomes mais competitivos. É o famoso “voto de legenda” levado ao pé da letra.
Vários deles já deram a entender que vão deixar a Câmara Municipal por um tempo para tentar uma cadeira no Congresso ou na Aleac. A coluna tem uma lista, mas vai aguardar mais à frente para soltar os nomes dos ‘desertores’.
Mas tem gente sobrando…
Se de um lado há partido penando para preencher nominata, do outro tem legenda precisando fazer ginástica para acomodar tanto nome forte.
É o caso da Federação Progressistas/União Brasil, que reúne nada menos que seis dos oito deputados federais da atual bancada acreana. A conta é simples e cruel: tem muita gente para pouca vaga em 2026. Nos bastidores, o clima é de apreensão, e o desafio será evitar o “canibalismo eleitoral” dentro da própria federação, em que um candidato com boa votação pode acabar derrubando o colega de partido.
Nesse grupo, quem lidera a lista é o presidente da Aleac, Nicolau Júnior, que tem reeleição garantida, mas pode alçar voos mais altos.
Outro caso que chama atenção é o do Podemos. Mesmo sendo uma sigla menor, o partido vai entrar na disputa com dois nomes de peso: o ex-prefeito Mazinho Serafim e o ex-deputado Ney Amorim. Ambos têm base eleitoral consolidada e devem travar uma disputa direta por uma vaga, o que promete esquentar a corrida e, de quebra, roubar voto de gigantes.
No mesmo grupo de legendas que chegam fortes está o PSDB. Sem nenhum deputado atualmente na bancada federal do Acre, o partido se reorganizou e vem para 2026 com uma nominata considerada das mais competitivas. Na lista de nomes estão o vice-presidente da Aleac, Pedro Longo, a ex-deputada Wanda Milani, e o presidente da Fundação de Cultura, o ex-reitor da Ufac, Minoru Kinpara, todos com base política sólida e presença destacada em diferentes regiões e setores do estado.
Olho em Brasília
Alguns deputados estaduais da atual legislatura da Assembleia Legislativa do Acre já avisaram, nos bastidores, que não pretendem disputar o mesmo cargo em 2026. A ideia é subir um degrau e tentar uma das oito cadeiras do estado na Câmara dos Deputados.
O movimento deve provocar um efeito em cascata: com nomes experientes deixando a disputa estadual para mirar Brasília, várias vagas na Aleac devem ficar abertas, abrindo espaço para novas lideranças. A expectativa é de uma renovação significativa na composição da Casa, algo que não acontece há algumas eleições.
Opinião!
Não é sobre direita ou esquerda
A megaoperação nas favelas do Rio de Janeiro, que já deixou mais de 100 mortos, não pode e nem deve ser tratada como um debate ideológico entre direita e esquerda. Trata-se, acima de tudo, de uma questão de segurança pública e de humanidade.
Reduzir a tragédia a uma disputa política é ignorar o problema real: o modelo falido de combate ao crime organizado no país. Entrar nas comunidades e matar centenas de pessoas, criminosas ou não, não resolve o problema. Pelo contrário, aprofundar o ciclo de violência só alimenta a sensação de guerra permanente que há décadas domina o noticiário.
E o ponto mais incômodo, que poucos dizem em voz alta: quem realmente comanda o crime organizado não está nas favelas. As decisões que movimentam as grandes redes criminosas, o tráfico internacional e o dinheiro sujo nas instituições vêm de bem mais longe, e raramente enfrentam operações desse tamanho.
