Há lembranças que se apagam como névoa… e outras que permanecem como tatuagens invisíveis.
Helena tinha apenas onze anos quando subiu ao palco da escola para recitar um poema. As mãos suavam, o coração batia apressado, mas ela estava pronta. Havia ensaiado cada verso, cada pausa. Quando terminou, foi aplaudida. Professores sorriram, a mãe chorou de orgulho.
Mas, entre tantas palmas, um som se destacou, um riso debochado vindo do fundo da plateia. Um riso breve, quase insignificante. E, ainda assim, foi ele quem ficou. Trinta anos depois, Helena lembra com nitidez daquele instante: o rosto do colega zombando, o calor subindo pelo rosto, a vergonha que a fez querer desaparecer.
É curioso como o cérebro funciona. Ele não guardou o aplauso, o afeto, o elogio apenas o riso. E há uma razão para isso: nossa mente foi feita para sobreviver, não para ser feliz.
Pesquisas em psicologia e neurociência chamam isso de viés de negatividade. Em termos simples, o cérebro grava com mais força o que ameaça, fere ou envergonha.
A amígdala cerebral dispara os mesmos alarmes diante de uma crítica, de um olhar de desprezo ou de uma rejeição. O cortisol é liberado, o coração acelera, e o hipocampo, a parte da memória, grava o momento em detalhes, como se dissesse: “Lembre-se disso. Pode acontecer de novo.”
Enquanto isso, os elogios e as palavras gentis passam como brisa. Produzem dopamina, um bem-estar doce, mas passageiro. Para o cérebro, são sinais de segurança e o que é seguro não exige vigilância. Assim, a lembrança do amor se desfaz mais rápido do que a lembrança da dor.
O psicólogo Rick Hanson costuma dizer: “O cérebro é como velcro para o negativo e como teflon para o positivo.” É uma metáfora dura, mas verdadeira.
Helena descobriu isso na prática. Anos mais tarde, já adulta, começou um pequeno ritual: antes de dormir, anotava três coisas boas que haviam acontecido no dia. Um gesto simples, quase banal. No começo, parecia forçado. Mas com o tempo, percebeu algo extraordinário, começou a lembrar mais das risadas sinceras do que das zombarias antigas.
A ciência explica: quando repetimos experiências positivas de forma consciente, fortalecemos novas conexões neurais. É como treinar o cérebro para equilibrar o peso da balança.
O riso cruel da infância ainda existe na memória de Helena, mas perdeu o poder de ferir. Tornou-se apenas um ponto distante no mapa de quem ela foi.
Porque o cérebro pode ter sido criado para sobreviver mas a alma, quando amadurece, aprende a viver apesar da dor.

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Quantos risos você ainda carrega na memória? E quantos aplausos deixou escapar?
