Instituto Santa Juliana, um dos prédios mais antigos do Acre, vive cenário de guerra; veja imagens exclusivas

Construído há mais de 100 anos em Sena Madureira, o prédio histórico está tomado pelo abandono e corre risco de desaparecer se nenhuma medida for tomada

Um dos prédios mais antigos da história do Acre vive um estado de completo abandono. Tomado por parasitas e coberto de poeira, o Instituto Santa Juliana — escola construída há mais de 100 anos no município de Sena Madureira — pode desaparecer se nada for feito.

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Instituto Santa Juliana, em Sena Madureira, Acre, em 4 de março de 1940/Foto: Arquivo Nacional

O ContilNet recebeu, com exclusividade, imagens registradas pelo droneiro e senamadureirense Airton Magalhães, que chegou a adentrar o local com seu equipamento para mostrar o que classificou como “um verdadeiro cenário de guerra”.

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Alunos assistindo ao hasteamento da Bandeira no Instituto Santa Juliana, anos após sua fundação/Foto: Reprodução

Fundado em setembro de 1922, por religiosas da congregação Servas de Maria Reparadoras, ligadas à Igreja Católica e vindas da Itália, o prédio sempre foi referência em educação. Por ele passaram inúmeras pessoas que se tornaram juízes, professores, médicos, artistas e figuras de grande reconhecimento no Estado.

Prédio do Instituto Santa Juliana antes do abandono/Foto: Reprodução

Atualmente, o espaço está entregue a animais peçonhentos e traças, que já destroem boa parte da madeira do forro e do piso.

A instituição pertence à Diocese de Rio Branco e, há algumas décadas, teve sua administração repassada ao Estado, que manteve o espaço como uma escola de ensino fundamental. Hoje, as atividades do colégio são executadas em um anexo do prédio abandonado.

Imagens mostram cenário de guerra no Instituto Santa Juliana/Foto: Airton Magalhães

O edifício é tombado como patrimônio estadual, em reconhecimento à sua importância histórica.

Em meados de 2022, foi constatado que o prédio se encontrava em avançado estado de degradação, com infiltrações e estrutura comprometida. Meses depois, a Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes do Acre (SEE) anunciou planos de transformar o local em um centro educacional e tecnológico, com salas de cinema, teatro, brinquedoteca e internet, preservando o prédio histórico — mas, até o momento, nada foi feito.

Em agosto deste ano, o Ministério Público do Acre (MPAC) notificou a Diocese de Rio Branco sobre o abandono do imóvel, exigindo providências para sua recuperação ou nova destinação. A entidade religiosa informou que iniciou conversações com a Prefeitura de Sena Madureira para que a área seja adquirida pelo município, e apresentou uma nova avaliação do prédio e do terreno ao senador Sérgio Petecão, que atua como mediador nas tratativas. O objetivo do município é transformar o espaço no futuro Centro Administrativo de Sena Madureira.

O lugar oferece perigos e, por isso, a entrada é proibida/Foto: Reprodução

“Cenário de guerra”

Ao ContilNet, Airton, que também foi aluno do colégio, contou que foi muito difícil capturar as imagens do Santa Juliana. O acesso ao local é restrito, pois a estrutura deteriorada oferece riscos.

“Gravar essas imagens foi difícil de várias formas: tanto porque o acesso é proibido — e, se o drone caísse ali, eu não conseguiria resgatar — quanto pelo impacto que a cena causa na gente. É um cenário de guerra. Imagine ver a escola onde você estudou, que formou tantas pessoas importantes, estar nessa situação? Isso aperta o coração”, relatou o droneiro.

Educação transformará Instituto Santa Juliana em Centro Educacional - Noticias do Acre

O lado de fora do colégio virou depósito de entulhos/Foto: Reprodução

Airton afirmou que é inadmissível que um prédio que conta parte da história do Estado esteja nessa situação.

“O poder público, a Igreja ou quem quer que seja o responsável precisa recuperar esse espaço com urgência, porque esse prédio não conta só a história de Sena Madureira, mas também a história do Acre”, acrescentou.

As imagens capturadas por ele, no interior do prédio, causam espanto em qualquer pessoa. Mas, para aqueles que tiveram suas trajetórias marcadas pelo colégio, o sentimento é também de profunda dor.

“Eu gravei não apenas para informar, para mostrar, mas também para sensibilizar. As pessoas e o poder público precisam entender a gravidade disso. O prédio está se acabando”, concluiu.

Quem é o responsável?

A reportagem do ContilNet procurou a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Sena Madureira, para saber quais medidas estão sendo tomadas em relação às condições do edifício. Quem nos atendeu prontamente foi o vigário Moisés Valério, que afirmou que a responsabilidade pelo espaço é inteiramente da Diocese de Rio Branco.

“A Diocese é a responsável pelo espaço. Não temos nenhum documento que nos dê posse do local. Se fosse da paróquia, com certeza já teríamos dado um jeito”, pontuou o religioso.

Mesmo destacando que a paróquia não tem responsabilidade direta sobre o prédio, o padre fez questão de expressar sua tristeza com a situação.

“Com muita tristeza a gente vê tudo isso, porque é um marco referencial da história de Sena Madureira — um colégio de cunho católico que formou muita gente, das camadas mais simples às mais altas da política, da medicina e das famílias locais. O Colégio Santa Juliana representa um marco da história de um povo. Ver essa situação de abandono é doloroso, é descaso. A gente se pergunta: se está alugado, por que esse dinheiro nunca foi aplicado na manutenção do prédio? Por que deixaram chegar a esse ponto?”, questionou o vigário.

Após a conversa com o padre Moisés, o ContilNet tentou contato com o bispo da Diocese de Rio Branco, Dom Joaquín Pertiñez, por meio de seu telefone pessoal, mas não obteve retorno. Em seguida, conseguimos falar com a assessoria de comunicação da Diocese, que afirmou que segue com as tratativas para transferir o espaço para a Prefeitura, pois não tem condições de recuperar o prédio:

“Referente ao prédio de Sena Madureira, estamos fazendo tratativas com a Prefeitura para a aquisição, pois não temos condições financeiras para a restauração do mesmo. Como o imóvel está tombado, sua restauração deve ser feita com a autorização do IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]”.

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