O Acre pode viver, pela primeira vez na história, um fato inédito na política local, e raro até no cenário nacional: uma chapa majoritária formada exclusivamente por mulheres disputando o Governo do Estado.
A possibilidade ganhou força nos bastidores após o início das conversas entre o PP, partido da atual vice-governadora Mailza Assis, e o MDB, que pode indicar a ex-deputada federal Jéssica Sales como vice.
Se a articulação avançar, Mailza e Jéssica formarão uma dupla que, além de unir duas forças políticas tradicionais, quebraria um dos maiores paradigmas da política acreana: o de que o protagonismo feminino no Executivo é exceção, não regra.
Mailza, que assumiu a vice-governadoria em 2023 após deixar o Senado, tem trabalhado discretamente na construção de seu nome como candidata ao Palácio Rio Branco. Já Jéssica, que carrega o peso do sobrenome Sales, uma das famílias mais influentes do MDB, e teve um mandato com uma aprovação grande no Acre, tem trânsito fácil entre prefeitos, vereadores e lideranças do interior, sobretudo no Juruá.
A aproximação entre as duas não é casual. De um lado, Mailza busca ampliar sua base política fora da órbita do governador Gladson Camelí. De outro, o MDB tenta retomar espaço após perder relevância nas últimas eleições, e ver Jéssica novamente no centro das articulações é um movimento de reoxigenação para a sigla.
Mas, mais do que uma jogada partidária, a possível chapa Mailza-Jéssica carrega um simbolismo histórico. O Acre foi o primeiro estado brasileiro a ser governado por uma mulher, Iolanda Fleming, em 1986, mas nunca teve uma disputa majoritária formada apenas por mulheres. Em quase quatro décadas, o poder continuou girando entre os mesmos grupos e sobrenomes masculinos.
Se confirmada, essa aliança representará um marco, tanto pela representatividade quanto pela estratégia. Mailza e Jéssica têm perfis distintos, mas complementares: a primeira, evangélica e com bom diálogo com a direita; a segunda, médica e com imagem mais moderada, voltada ao eleitorado do interior.
Ainda é cedo para cravar que a chapa feminina sairá do papel. A política acreana é conhecida por suas reviravoltas de última hora, mas o simples fato de essa composição estar sendo discutida já sinaliza uma mudança de cenário. Num estado em que a política ainda é dominada por homens, duas mulheres no topo da disputa majoritária seria, no mínimo, um sopro de novidade.
E, quem sabe, o início de uma nova história no Palácio Rio Branco.

