Quando o Rio Acre transborda, o estado falha: revitalização não pode mais esperar

Quando o rio transborda, não é excesso de água: é um pedido de socorro ignorado por décadas

Revitalizar o Rio Acre precisa ser a prioridade zero do próximo governador ou governadora. Não se trata de uma pauta ambiental acessória, nem de um tema restrito a técnicos ou especialistas. Trata-se de desenvolvimento, de economia, de justiça social e, sobretudo, de respeito à história e ao futuro do estado. Todas as vezes que o Rio Acre transborda, ele não apenas inunda ruas e casas: ele grita por socorro. Um grito que vem sendo sistematicamente ignorado pelo poder público e pela sociedade.

O Rio Acre é eixo estruturante da formação urbana, social e econômica do estado. Foi por ele que se organizaram os primeiros núcleos de ocupação, o comércio, a circulação de pessoas e mercadorias. Ao longo do tempo, porém, o rio deixou de ser tratado como ativo estratégico e passou a ser visto como obstáculo, ameaça ou problema sazonal. Essa inversão de perspectiva cobra um preço alto todos os anos, especialmente no período das cheias.

As enchentes recorrentes não são fenômenos naturais inevitáveis, como muitas vezes se tenta justificar. Elas são consequência direta de escolhas políticas equivocadas, da ausência de planejamento de longo prazo e da degradação progressiva da bacia hidrográfica. O desmatamento das matas ciliares, a ocupação irregular das várzeas, a precariedade do saneamento básico e a falta de uma política integrada de gestão das águas fragilizaram o rio e ampliaram sua vulnerabilidade. Quando chove mais forte, o sistema colapsa.

O impacto social é devastador. As cheias atingem de forma desigual, penalizando principalmente a população mais pobre, que vive em áreas de risco por falta de alternativas habitacionais. Famílias perdem tudo o que construíram ao longo de anos; pequenos comerciantes veem seus negócios desaparecerem; serviços públicos essenciais são interrompidos. A cada enchente, repete-se o ciclo perverso de prejuízos, improviso e promessas não cumpridas. Isso não é apenas ineficiência administrativa: é um modelo de desenvolvimento que fracassou.

Há também um custo econômico silencioso, mas profundo. A instabilidade urbana causada pelas cheias afasta investimentos, encarece seguros, compromete a logística e reduz a competitividade do estado. Nenhuma estratégia séria de crescimento pode ignorar um fator de risco estrutural como o Rio Acre degradado. Revitalizá-lo é criar segurança jurídica, ambiental e urbana para o futuro.

Revitalização, aqui, não pode ser confundida com obras pontuais ou ações emergenciais. É um processo amplo, que exige visão sistêmica e continuidade. Envolve recuperação das matas ciliares, proteção de nascentes, controle do uso do solo, saneamento, drenagem urbana inteligente e ordenamento territorial. Envolve, sobretudo, governança: coordenação entre Estado, municípios e sociedade, com metas claras, orçamento definido e transparência.

Tratar o Rio Acre como prioridade zero é reconhecer que ele não é o problema, mas parte fundamental da solução. Um rio revitalizado pode cumprir seu papel ecológico, reduzir o impacto das cheias, melhorar a qualidade da água, valorizar áreas urbanas, estimular o turismo e fortalecer a identidade do estado. Mais do que conter enchentes, trata-se de reconciliar o Acre com o seu próprio território.

O próximo governo terá diante de si uma escolha histórica. Pode seguir administrando crises previsíveis, gastando recursos públicos para remediar tragédias anunciadas, ou pode assumir a responsabilidade de enfrentar o problema na raiz. Ouve-se, a cada transbordamento, o mesmo discurso de surpresa. Mas o rio avisa. O rio fala. O rio grita por socorro. Cabe à política, finalmente, decidir se vai continuar fingindo que não escuta ou se vai responder à altura do desafio.

Zé Américo Silva é jornalista e consultor de Marketing Político

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