“Nossa pena é perpétua”: sobrinho transforma dor em memória dez anos após feminicídio

Acre lidera taxa proporcional de assassinatos de mulheres em 2025

Sobrinho transforma dor em memória dez anos após feminicídio
Sobrinho transforma dor em memória dez anos após feminicídio/Foto: Cedida

Dez anos após o feminicídio de Keyla Viviane dos Santos, morta aos 29 anos pelo ex-companheiro em 29 de fevereiro de 2016, em Rio Branco, o sobrinho dela, Matheus Tavares, afirma que a dor não diminuiu com o tempo. “Nossa pena é perpétua”, resume.

Keyla foi assassinada menos de um ano depois da sanção da Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015, que incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio no Código Penal. Uma década depois, a violência que tirou a vida dela continua fazendo vítimas no estado.

Em publicação nas redes sociais, Matheus transformou a memória da tia em um desabafo público. Ele escreveu que, mesmo quando o calendário não marca o dia 29 de fevereiro, a memória marca. Disse que a pessoa condenada por tirar a vida dela está em liberdade e teve cerca de 700 dias reduzidos da pena. Mas destacou que, enquanto dias podem ser reduzidos, a ausência não é. Keyla nunca mais volta para casa. E completou afirmando que, enquanto falar dela, ela continuará viva na lembrança de quem a amou. Finalizou com uma frase direta: “Quem ama não mata”.

Ao ContilNet, ele descreveu os últimos dez anos como um “aprendizado forçado”.

“Esses dez anos foram de aprendizado forçado. A dor não desapareceu, ela só mudou de forma. A gente aprende a conviver com a ausência, mas não existe um dia em que não lembre. São dez anos sem a presença da minha Tia Vivi, sem a risada dela, sem os planos que ela tinha. O tempo não apaga, apenas ensina a continuar”.

Matheus tinha oito anos a menos que a tia

Matheus tinha oito anos a menos que a tia/Foto: Cedida

Matheus tinha oito anos a menos que a tia. Cresceram juntos, compartilharam fases importantes da vida. A ausência, segundo ele, é diária.

Sobre a atuação da Justiça, ele afirma respeitar o que foi decidido no processo.

“Sobre a Justiça, eu respeito as decisões judiciais e entendo que o processo seguiu dentro da lei. Houve prisão, julgamento e condenação. Dentro do que a legislação prevê, a Justiça foi aplicada”.

Mas faz uma distinção clara entre o que é jurídico e o que é emocional.

“Mas, para a família, existe uma diferença entre justiça legal e a dor emocional. Nenhuma decisão traz ela de volta”.
Ao comentar a remissão de pena e a progressão de regime concedidas ao condenado, Matheus reconhece que são direitos previstos na legislação penal, mas admite a dificuldade de aceitar.

Cresceram juntos, compartilharam fases importantes da vida

Cresceram juntos, compartilharam fases importantes da vida/Foto: Cedida

“Em relação à remissão de pena e à progressão de regime, eu sei que são direitos previstos na legislação e fazem parte do sistema penal. No entanto, como familiar da vítima, é difícil enxergar isso como algo justo. Para quem perdeu alguém de forma tão violenta, não existe redução de dor, não existe progressão da ausência. A nossa pena é perpétua”.

Acre lidera taxa proporcional no país

Os números mais recentes mostram que a dor vivida pela família de Keyla se repete em outras casas do estado.
Com 14 feminicídios registrados em 2025, o Acre é atualmente o estado brasileiro com a maior taxa proporcional de assassinatos de mulheres, estimada em 1,58 casos por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
No ranking nacional por números absolutos, o estado aparece à frente do Amapá, com 9 casos, e de Roraima, com 7.
Em comparação com 2024, quando foram contabilizados oito feminicídios, o Acre registrou um aumento de 75% no total de ocorrências em 2025.

Com esse resultado, o estado voltou a atingir o pico da série histórica dos últimos dez anos, repetindo os patamares observados em 2016 e 2018, que também fecharam com 14 casos cada.

Desde 2015, ano em que a Lei do Feminicídio entrou em vigor, o Acre já contabilizou 122 mulheres assassinadas em crimes tipificados como feminicídio. A marca de 100 vítimas foi ultrapassada em 2023, quando o acumulado da década chegou exatamente a cem casos.

Dez anos após o crime que marcou a família de Matheus, os números reforçam que a violência contra mulheres segue sendo uma realidade alarmante no estado.

Para ele, manter viva a memória da tia é também uma forma de resistência e de alerta.

Porque, como diz, algumas penas podem ser reduzidas no papel.Mas, para quem ficou, a ausência não tem prazo para terminar.

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