13/08/2026

Após 44 anos, PT fica fora da disputa pelo Governo do Acre pela 1ª vez

Em vez de lançar um nome próprio, o PT integrou a frente que apoia o médico Thor Dantas (PSB)

Por Matheus Mello, ContilNet 13/08/2026 às 15:53
Em 2026, pela primeira vez, o PT sequer estará na urna com um candidato próprio ao governo/Foto: Reprodução

Pela primeira vez desde a retomada das eleições diretas para governador, em 1982, o Partido dos Trabalhadores (PT) não terá um candidato próprio ao Governo do Acre. A mudança rompe uma tradição de 44 anos em que a legenda esteve presente em todas as disputas pelo Palácio Rio Branco e encerra, ao menos formalmente, um dos ciclos mais duradouros da política acreana.

A decisão é consequência da estratégia adotada pelo partido para as eleições de 2026. Em vez de lançar um nome próprio, o PT integrou a frente que apoia o médico Thor Dantas (PSB) ao governo e concentrou sua principal aposta majoritária na candidatura do ex-governador Jorge Viana ao Senado. As candidaturas foram oficializadas no fim de julho.

A ausência do PT da cabeça de chapa ganha peso pelo histórico da legenda. Desde 1982, quando o Acre voltou a escolher diretamente seu governador, o partido lançou nomes em todas as eleições. A lista inclui Nilson Mourão, em 1982; Hélio Pimenta, em 1986; Jorge Viana, em 1990, 1998 e 2002; Tião Viana, em 1994, 2010 e 2014; Binho Marques, em 2006; e Marcus Alexandre, em 2018. Em 2022, Jorge Viana voltou a disputar o governo.

A trajetória é ainda mais expressiva quando considerados os resultados. Entre 1998 e 2018, o PT comandou o Acre por 20 anos, com dois mandatos de Jorge Viana, um de Binho Marques e dois de Tião Viana. O ciclo foi interrompido em 2018, quando Marcus Alexandre foi derrotado por Gladson Cameli. Em 2022, Jorge Viana tentou novamente retornar ao Palácio Rio Branco, mas terminou a disputa em segundo lugar, atrás de Cameli.

Agora, o partido que durante duas décadas esteve no centro da política estadual decidiu abrir mão da candidatura própria em nome de uma composição mais ampla do campo progressista.

A escolha por Thor Dantas representa uma mudança importante na estratégia eleitoral da esquerda acreana. O médico do PSB passou a ser tratado como o nome capaz de reunir diferentes forças em torno de uma candidatura comum, enquanto Jorge Viana assumiu a missão de disputar uma das duas vagas ao Senado.

O movimento não aconteceu por acaso. Em entrevista ao ContilNet, o presidente estadual do PT, André Kamai, afirmou que a prioridade da legenda para 2026 é ampliar alianças e concentrar esforços na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na eleição de Jorge Viana para o Senado.

“O PT entende que é hora da gente ampliar. A prioridade do PT nessa eleição é as candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, obviamente, a reeleição do presidente Lula, e a eleição do nosso ex-governador Jorge Viana ao Senado”, afirmou Kamai.

Segundo o dirigente, a decisão de apoiar um candidato de outra legenda não representa um problema para o PT. A avaliação interna é de que a formação de uma frente ampla pode ser mais importante do que manter a tradição de encabeçar a chapa.

“A gente entende que é importante ampliar essa aliança, construindo a possibilidade de um outro partido, nesse caso o PSB, liderando a disputa para o governo. Para a gente isso não é nenhum problema. Nós já lideramos uma frente por quase 30 anos”, disse Kamai.

A composição coloca Jorge Viana em uma posição diferente daquela ocupada por ele em outras eleições. Ex-governador por dois mandatos, ele agora disputa o Senado enquanto participa diretamente da construção da candidatura de Thor.

O próprio cenário eleitoral também mostra que a estratégia do PT é concentrar forças na eleição para o Senado. Levantamentos divulgados ao longo de 2026 colocam Jorge Viana entre os principais nomes da disputa pelas duas cadeiras disponíveis no Acre. Em pesquisa do Paraná Pesquisas realizada entre 31 de maio e 2 de junho, por exemplo, o petista apareceu entre os candidatos mais citados nos cenários para o Senado.

A mudança também revela a transformação do cenário político desde o fim da hegemonia petista. Depois de 20 anos no governo, o partido passou a enfrentar uma reorganização do campo político após a derrota de 2018. Em 2022, mesmo com Jorge Viana novamente na disputa, a legenda não conseguiu recuperar o Palácio Rio Branco.

Em 2026, pela primeira vez, o PT sequer estará na urna com um candidato próprio ao governo.

O partido, porém, não abandona a disputa pelo Executivo. A estratégia agora é diferente: apoiar um candidato de outra legenda e tentar construir uma candidatura competitiva com o apoio de um conjunto maior de partidos de esquerda e centro-esquerda.

A escolha também dá a Thor Dantas uma responsabilidade que vai além de sua própria legenda. A candidatura do médico passou a representar o principal projeto do campo progressista para o governo estadual. A aliança reúne PT, PSB, PCdoB e outras forças, enquanto Jorge Viana aparece como um dos principais articuladores da frente.

Assim, a eleição de 2026 marca uma mudança simbólica na história política do Acre: depois de 11 eleições consecutivas apresentando um nome próprio ao Palácio Rio Branco, o PT decidiu não disputar a cabeça de chapa. Pela primeira vez desde 1982, o partido estará na corrida pelo governo sem ocupar o lugar de candidato.

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