Há uma conta que começa a ganhar importância na eleição para o Governo do Acre: para onde irão os votos da esquerda caso Mailza Assis chegue ao segundo turno contra Alan Rick ou Tião Bocalom?
A pergunta não é meramente matemática. Ela passa pelo perfil dos candidatos, pela rejeição de cada um e, sobretudo, pela capacidade de construir uma maioria para além do próprio campo político.
A pesquisa mais recente do Real Time Big Data, divulgada em julho, colocou Alan Rick com 38%, Mailza com 28%, Bocalom com 17% e Thor Dantas, principal nome identificado com o campo progressista na disputa, com 7%.
Esses 7% de Thor não significam, evidentemente, que todo esse eleitorado migraria automaticamente para Mailza em um eventual segundo turno. Mas representam um contingente relevante de votos que precisaria escolher entre duas opções, ou eventualmente branco, nulo ou abstenção, caso o candidato do PSB fique fora da disputa.
É aí que começa uma questão interessante da eleição
Mailza é uma candidata de direita, pertence ao PP e mantém vínculos claros com o eleitorado conservador. Ao mesmo tempo, sua imagem pública tem sido menos marcada pela confrontação ideológica do que a de outros nomes do mesmo campo.
Isso pode abrir uma faixa de diálogo com eleitores que não necessariamente se identificam com a direita, mas que também não enxergam em Mailza uma adversária irreconciliável.
A própria pesquisa dá uma pista sobre a existência desse espaço. Nas simulações de segundo turno, Mailza aparece com 36% contra 45% de Alan Rick. Já contra Bocalom, a governadora aparece à frente, com 42% contra 28%.
Não é possível afirmar, a partir desses números, de onde viriam os votos de cada candidato eliminado. Mas o cenário mostra que a composição do eleitorado muda quando a eleição deixa de ser uma disputa com quatro ou cinco nomes e passa a ser uma escolha binária.
E há um componente político que não aparece integralmente nas pesquisas
Pessoas ligadas à esquerda ouvidas pela coluna admitem, em conversas reservadas, que enxergam Mailza como uma alternativa mais palatável do que outros nomes da direita. Não significa adesão ao projeto político da governadora. Significa, antes, que existe uma diferença de percepção entre os candidatos.
Um dos elementos dessa construção é Jéssica Sales, escolhida como vice de Mailza.
A chapa formada pelas duas mulheres carrega um simbolismo adicional. Além de representar uma composição exclusivamente feminina, algo inédito na disputa pelo Governo do Acre, Jéssica é casada com outra mulher e trata publicamente de sua vida pessoal, sem transformar isso em algo a ser escondido.
Mailza, que é evangélica, poderia simplesmente evitar o assunto. Em entrevista ao ContilNet neste mês, fez o contrário. Ao defender Jéssica, afirmou que escolhas pessoais e modo de vida não determinam o caráter ou a responsabilidade de alguém.
“Eu acho que as escolhas pessoais, a escolha que a pessoa fez, o modo de vida que ela tem, não podem definir o caráter, a responsabilidade, o respeito”, disse.
Na mesma entrevista, também elogiou a trajetória da vice: “A Jéssica é uma pessoa que tem um exemplo de vida, de comportamento. Foi uma parlamentar que fez um grande trabalho na Câmara Federal. É uma pessoa reconhecida e querida na cidade do Juruá.”
É um discurso que ajuda a explicar por que Mailza pode ter alguma capacidade de circulação fora do eleitorado tradicionalmente associado ao PP.
Nas agendas públicas, a governadora também tem buscado aparecer ao lado de representantes de movimentos e grupos que historicamente dialogam mais com a esquerda, além de indígenas e integrantes da comunidade LGBT+.
Nada disso transforma Mailza em candidata de centro ou de esquerda. Ela continua sendo uma candidata de direita. O ponto é outro: sua campanha pode ter maior facilidade para conversar com segmentos que não pertencem ao seu campo ideológico original.
E, em um segundo turno, isso pode ser decisivo
A eleição muda de natureza quando o eleitor deixa de escolher entre vários projetos e passa a rejeitar um nome ou aceitar outro. Os 7% de Thor, portanto, podem valer mais no segundo turno do que sugerem isoladamente no primeiro.
Também por isso, a disputa pelo centro — e pelos eleitores que não se identificam integralmente com nenhum dos lados — tende a ganhar peso conforme a campanha avançar.
No Acre, como em outras eleições, o segundo turno pode ser menos sobre conquistar novos eleitores e mais sobre descobrir quem consegue ser rejeitado por menos gente.
