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17 junho, 2021 7:28 am

De “sem Série” à “Série B”: confira a incrível trajetória do Remo (2007-2021)

POR MAURO TAVERNARD, PARA CONTILNET

2009 tinha tudo para ser um ano difícil para o Clube do Remo, o Filho da Glória e do Triunfo, Leão Azul de Antônio Baena, com milhões de fanáticos torcedores espalhados pela Amazônia Legal. Mas o destino, não satisfeito, tratou de tornar a temporada a pior de todos os tempos do time – até aquele momento. O primeiro jogo do Parazão já era o cartão de visitas para o show de horrores que viria a seguir: 5 a 1 para o São Raimundo, de Santarém, em pleno Baenão.

Antes de falar sobre esse jogo, preciso explicar como foi a temporada de 2007, onde foi construído, a passos largos, o calvário azulino. O time faturou o Campeonato Paraense de 2007 com folga, e chegou na Série B cheio de pompa. Alguns especialistas diziam até que era candidato ao acesso para a Série A. O ataque prometia chuva de gols: Fábio Oliveira, Landú e Zé Soares, fora o elenco com bons nomes.

Mas o valor alto da folha de pagamento resultou em atrasos salariais, refletido nos fracos resultados em campo. Isso sem contar os bloqueios da Justiça Trabalhista, referente a débitos anteriores do clube. Com várias rodadas de antecedência, o Remo já estava rebaixado para a Série C novamente.

Em 2005, a torcida abraçou o time, bateu recordes de bilheteria, e fomos campeões do torneio, mas em 2008 a motivação não era a mesma. Fomos bicampeões do certame estadual com um elenco que não era dos melhores, fora os problemas internos do clube e atrasos salariais.

O acreano e ex-jogador Artur, conhecido em Belém como “Rei Artur”, fez o que pode para que o clube retornasse para a Série B, mas nas duas últimas rodadas do certame ocorreu uma combinação de resultados bizarra que nos rebaixou de divisão.

Passamos da primeira fase, mas na segunda, num grupo com Rio Branco (primeiro colocado), Luverdense (MT) e Holanda (AM) conseguimos a proeza de sermos o último colocado, perdendo os dois jogos finais. Bastava empatar com o Rio Branco na capital acreana para conseguir a classificação para a primeira fase. Não apenas saímos da competição, como fomos rebaixados para a Série D, que para nossa “sorte”, havia acabado de ser criada.

Se tivéssemos empatado, nos classificaríamos; se ficássemos em 3°, permaneceríamos na Série C do ano seguinte; se não houvesse atraso de salário, não estaríamos nessa situação; se o presidente Raimundo Ribeiro tivesse saído após a desastrosa temporada de 2007, tudo seria diferente. Se, se, se e mais se.

O fato é que fomos rebaixados para uma recém criada última divisão do campeonato nacional. O que remete ao jogo de estreia da temporada 2009. O mesmo São Raimundo que nos deu um “sacode” de 5 x 1 em nossa casa foi o campeão da Série D daquele ano. Nesse jogo, saí cabisbaixo do estádio com meu irmão e dois amigos. Todos ali já haviam capitados os sinais da desgraça que viria – sorte que a cerveja e a resenha pós-jogo amenizou nossa dor.

Não conseguimos vaga para tal Série D – perdemos ela em confronto direto para o próprio São Raimundo -, resultando na ausência do time em competições oficiais no segundo semestre. Além da humilhação de ser zoado pelos torcedores do nosso grande rival, Paysandu, o time fez amistosos caça-níquel pelo interior do estado; tivemos nosso escudo original da fachada do Baenão arrancado na calada da noite – numa trabalhada espetacular do presidente Amaro Klautau, desesperado em vender o nosso templo sagrado para uma construtora para quitar dívidas –; e os velhos problemas internos de sempre: diretoria amadora, brigas entre “múmias” e “kids” (diretores e pessoas ligadas ao Remo, velhos e novos), pernas de pau em campo…

Meu tio-bisavô Antônio Tavernard, autor do belíssimo hino do Clube do Remo (“atletas azulinos somos nós”) e da alcunha “Filho da Glória e do Triunfo”, deveria estar se revirando no túmulo caso visse sua querida agremiação no fundo do poço como estava.

Em 2011, eu vi tudo isso de perto, como jornalista de um jornal impresso de Belém, e depois como assessor de impressa do Remo. Não durei nem dois meses no cargo, apesar de adorar o ambiente. Me sentia em casa no Baenão, mas sem receber salário (assim como os jogadores e comissão técnica), fui trabalhar em outro grupo de comunicação da cidade.

Um momento marcante para mim desse período foi a visita do clube numa cidade do interior do Pará em que o time foi jogar contra peladeiros de um frigorífico. Lembro que até sofremos um gol deles, uma cena patética para um clube do porte do Remo.

Em 2012, vi das cabines de impressa do Mangueirão Garrinchinha fazer dois gols no final do jogo e ganhar o título do Parazão para o Cametá e nossa vaga, em campo, da Série D. O Mapará Elétrico acabou nos cedendo a vaga depois de fazer acordos ($) com torcedores influentes e pessoas ligadas ao Remo. Não coloco nomes para não ser processado, mas todos em Belém sabem da história, pois esse tipo de coisa não manda recibo.

Em 2014, o presidente Zeca Pirão montou um super time para o acesso, mas batemos na trave contra o Brasiliense, e ele ainda protagonizou uma trapalhada ao quebrar parte do estádio para a construção de camarotes que jamais foram entregues aos compradores, pois o valor deles teve que ser usado para o pagamento de salários dos atletas. Desde então, o Baenão ficou sem receber jogos, voltando a funcionar apenas anos depois.

Em 2015, no ano do tão esperado acesso, ganhamos o bicampeonato paraense, mas tivemos o recém-eleito Pedro Minowa deposto do cargo por improbidade administrativa, sobretudo no obscuro processo de venda do jogador Rony, hoje no Palmeiras. Ainda teve o “Cuiabaço”, em que perdemos o título da Copa Verde numa nebulosa virada para o Cuiabá na Arena Pantanal.

Manoel Ribeiro, presidente multicampeão dos anos 70, assumiu mandato tampão e o acesso  foi conquistado com atuações primorosas do meia Eduardo Ramos, que virou xodó da torcida azulina – até hoje existem “viúvas” que querem o retorno do jogador ao time.

Com novas eleições emergenciais, André Cavalcante assumiu a presidência por um ano e teve várias boas sacadas de marketing, como melhora no Sócio Torcedor e aplicativo próprio do clube. Tudo muito moderno, mas no futebol foi mais do mesmo, com contratações caras, atrasos de salário e a não classificação do time para a segunda fase da Série C, do qual voltávamos a disputar depois de oito anos.

Em 2017 e 2018, Manoel Ribeiro voltou ao cargo, e não há muito o que falar desse período. Tudo muito parecido: jogadores caros, atrasos de salário, administração confusa, torcida desmotivada, eliminação dos torneios. O único fato relevante foram as “4 peias” seguidas no rival Paysandu no Parazão.

No final de 2018, Fábio Bentes concorreu ao cargo de presidente do clube contra Manoel Ribeiro. Já conhecia o Fabio e o apoiava, um grande remista. Eu tinha algum apelo por ter escrito, no ano anterior, o livro “Alcino Negão Motora – A História do Gigante do Baenão”, sobre o maior ídolo do Clube do Remo, e estava disposto a ajudar. Fui até chamado para ser diretor de comunicação e marketing por ele, mas tive que recusar, pois na função eu não poderia receber salário e também não me sentia apto a tratar sobre marketing. Fiz minha contribuição no encarte oficial da campanha, produzida por mim e um design que depois trabalhou para o clube.

O início da gestão do Fábio para mim foi pífia, e cheguei a fazer coro com a torcida descontente. Acreditava que ele era muito permissivo com “sanguessugas” do passado, que tinham livre acesso à sede e ao Baenão, e era contra a diretoria de futebol que ele insistia em manter, apelidada pela torcida de “diretoria playstation” pela baixa idade dos membros e pelo fato de não serem profissionais da área.

Também nutria um sentimento esquisito pelo clube por conta de uma situação que aconteceu comigo, ao peitar um diretor da gestão de Manoel Ribeiro, e não ter apoio de pessoas influentes apenas por politicagem. Isso também influenciou o fato de não querer me envolver com o clube, mas ainda assim me disponibilizei para trabalhar na assessoria de imprensa, que naturalmente não aconteceu por eu não ter participado da campanha ativamente.

Quando vim para o Acre, no segundo semestre de 2019, voltei a ver os jogos do Remo com meu amigo Júlio Martins, paraense e remista fanático, radicado no Acre há mais de 20 anos. O time ainda continuava inexpressível dentro de campo, e o acesso à Série B parecia uma miragem distante, mas administrativamente a mudança era nítida.

O que eu achava ser atitude permissiva do presidente, na verdade era uma tática muito bem feita para evitar que figurinhas carimbadas do clube tentassem sabotar o trabalho que vinha sendo feito. Uma tacada de mestre, de um grande líder. Os salários de jogadores e funcionários do clube começaram a ser pagos em dia, o Baenão foi reaberto após vários anos de inatividade, bons acordos eram feitos na justiça do trabalho e dentro de campo, em 2020. conseguimos o acesso à Série B.

Tudo conquistado com muito trabalho do presidente e sua equipe, que ainda deram “de brinde” a compra do Centro de Treinamento do Carajás, que será nosso novo CT. A grosso modo, falta apenas modernizar e popularizar o programa de Sócio Torcedor para tornar essa administração excelente, mas tenho certeza que isso será resolvido ainda nessa gestão.

Na atual temporada, o Remo tem quase 80% de aproveitamento, e apesar do “tri-vice” na temporada passada – Parazão, Copa Verde e Série C -, o principal foi alcançado, que era o retorno à Série B após 14 anos. Com dívidas controladas, gestão consciente e torcida fanática e empolgada, o Clube do Remo parece ter a receita pronta para o acesso. Independentemente do resultado do jogo contra o Atlético MG nesta quarta-feira, pela Copa do Brasil – adversário este com investimento muito superior ao nosso -, vejo o clube com boas chances de estar na Série A em 2022.

Seria o mínimo para retribuir todo carinho e devoção que o “Fenômeno Azul” sempre disponibilizou ao time. Talvez até como um pedido de desculpas por tanto sofrimento causado. Afinal, o trecho da música cantada nas arquibancadas antes da pandemia, “nas boas te quero, nas ruins te amo” deve ser usado apenas como figura de linguagem.

O que a torcida quer mesmo é amar um clube respeitado por todo Brasil, com moral para peitar qualquer time e disputar títulos. A semente já foi plantada e os frutos começam a ser colhidos, mas só o futuro irá dizer para onde iRemos. Mas uma coisa eu posso garantir: a torcida sempre estará ao seu lado, Clube do Remo, o Filho da Glória e do Triunfo!

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