18 de abril de 2024

Expulso do PL, pastor acusado de matar Chico Mendes fugiu de presídio do Acre junto com o pai

Pai e filho passaram três anos escondidos em um município paraense

O agora político Pastor Daniel, destituído do cargo de presidente do diretório municipal do PL em Medicilândia (PA),pelo presidente nacional da sigla, Valdemar da Costa Neto, é um velho conhecido naquela região. Medicilândia, fundada no início o dos anos de 1970, no auge da ditadura militar e cujo nome é homenagem a um dos presidentes-generais do regime, Emílio Médici, tem uma população estimada em 2020, de 31.975 habitantes, localizada a pouco mais de 920 quilômetros da Capital Belém, no meio da selva.

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O tal Pastor Daniel chegou por ali em 1993, quando, para percorrer a mesma distância e também partindo de Belém de ônibus, demorava-se no mínimo três dias com três noites, por estrada de chão sem iluminação ou pontos de parada com alguma dignidade. Era como se alguém saísse da civilização, como já era Belém naqueles anos distantes, para o encontro do nada, onde cidadania e outros princípios civilizatórios não existiam. Enfim, um lugar perfeito para viver para alguém que tinha o verdadeiro nome que o então Pastor Daniel pretendia esconder, além do homem que ele apresentava como seu patrão, de nome Francisco, um sujeito cuja magreza era de causar dó, dependente de óculos fundo de garrafa e cuja boca, com os dentes estragados, refletiam o estado de miséria que aqueles dois sequer disfarçavam em mostrar.

Ele foi destituído do comando do PL/Foto: redes sociais

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Era um disfarce que quase perdurou por quase três anos, quando os dois foram, enfim, descobertos pela Polícia Federal. Daniel e Francisco eram, na verdade, Darci Alves Pereira, rapaz com pouco mais de 25 anos, e Darli Alves da Silva, então com 54 anos, pai e filho foragidos da Justiça após uma condenação de 19,5 anos de prisão pelo assassinato do sindicalista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, em dezembro de 1988, em Xapuri. Eles foram condenados pelo Tribunal do Júri de Xapuri no final de 1990, pouco mais de dois anos após o assassinato, confessado por Darci Pereira como uma forma de agradar ao pai Darli, fazendeiro e inimigo ferrenho de Chico Mendes.

Ficaram pouco tempo no presídio Francisco D’Oliveira Conde, em Rio Branco. Fugiram em dezembro de 1993, no governo Romildo Magalhães, numa época em que a guarda do sistema penitenciário estadual cabia à Polícia Militar do Acre. O comandante do policiamento da PM na Capital e no Interior era o então tenente-coronel Hildebrando Pascoal. Mesmo sob um rigoroso inquérito policial instaurado logo após a fuga, não se descobriu, até os dias atuais, como pai e filho conseguiram burlar a vigilância policial e ganhar o mundo. O que as investigações revelaram de fato foi que um preso de nome José Maria Thomaz, o “Macaxeira”, que cumpria pena numa cela vizinha à dos Alves, teria testemunhado algumas cenas e andara falando sobre o que havia ocorrido na cela ao lado, este, sim, desapareceu de fato, para nunca mais.

Com a fuga, o Acre daquela época, que havia atraído a atenção da imprensa nacional e internacional por acontecimentos bizarros ocorridos por aqui, como o assassinato de Chico Mendes e do governador Edmund Pinto em pleno exercício do mandato, num quarto de hotel em São Paulo, entrava de vez no olho do furacão e captava as atenções do mundo. Nas maiores emissoras de TV do país, os jornalistas mais experientes, como Marcos Losekan, da Rede Globo, e Roberto Cabrini, do SBT, disputavam palmo a palmo para ver quem, enfim, daria o furo internacional de localizar os fugitivos. E os correspondentes experientes que haviam andado o mundo inteiro, como Cabrini, que anteriormente ficara famoso por localizar o então tesoureiro do presidente Collor e fugitivo Paulo César Farias na Tailândia, assim como Losekan, davam plantão no Acre, em visitas ao interior.

Os correspondentes tinham informações de que pai e filho fugitivos haviam deixado o Brasil pela Bolívia, através da fronteira de Brasiléia, no Alto Acre. Marcos Losekan era o que mais insistia nisso e veio ao Acre tantas vezes seguindo tais pistas que, se não encontrou os fugitivos, acabou casando com uma moça nativa de Brasiléia, levou-a para viver no exterior e segui-lo em coberturas ao redor do mundo, mas, ainda assim, o casamento não deu certo e a moça que um dia rodou o mundo vive hoje na periferia de Rio Branco.

Caso ganhou repercussão mundial/Foto: Reprodução

Enquanto isso, Darci e Darli, sob identidades falsas, levavam boa vida em Medicilândia. Darci atendia pelo nome de Daniel, o que a polícia descobriu depois ser a identidade de um político amigo seu em Epitaciolândia, Daniel Dorzila, que também está se apresentando por esses dias para disputar a Prefeitura local. Darli era o respeitável senhor Francisco Matias, coincidência ou não nome de um delegado de polícia e então promotor de justiça do Acre, já falecido. Até hoje não se sabe informações de como os dois se apoderaram de tais identidades. Trabalhadores, pai e filho já eram donos de uma pequena propriedade onde criavam algumas vacas, plantavam e colhiam. Ao serem presos, sob as identidades falsas, estavam se preparando para acessar crédito rural, junto ao Banco da Amazônia. Ambos usavam um telefone público para se comunicar.

Aquele script digno de um folhetim policial, ao final do ano de 1993, ganharia mais um capítulo, o da política. 1994 era ano de eleição geral no país, inclusive para presidente da República. Pelo PT, já estava em campanha o candidato que mais provavelmente conhecia o Acre e os bastidores de suas histórias rocambolescas, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava se apresentando para sua segunda disputa e derrota também seguidas. O candidato a que o petista iria enfrentar era Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, escritor, professor e intelectual de fama internacional, ex-senador e ex-ministro da Fazenda do governo anterior, o de Itamar Franco, herdado de Fernando Collor de Mello, que havia sido cassado pelas patifarias cometidas com ajuda de Paulo César Farias, aquele ao qual Roberto Cabrini localizara em Bangkok.

Mas o currículo e a história de FHC, que disputaria a eleição presidencial pelo PSDB, pesavam a seu favor o combate à inflação que solapava a economia do país e ter criado o Real como moeda nacional e forte ao ponto de ser amparado ao Dólar norte-americano. Bastava dizer na campanha que, no Governo, iria manter a economia como estava e ele já seria bem votado. Mas, FHC foi além: firmou, como um dos cinco maiores compromissos de campanha, a recaptura dos assassinos de Chico Mendes, pai e filho, estejam onde estivessem, usem os nomes que usarem. FHC tomou posse, reafirmou o compromisso e levou para o Ministério da Justiça o jurista Nelson Jobim. O novo ministro encarregou a Polícia Federal de cair em campo e levar de volta à cadeia Darci e Darli Alves, cuja fuga colocava o Brasil como pária internacional e eram muitas as cobranças de várias nações estrangeiras pela prisão dos dois, principalmente dos Estados Unidos.

Darci Alves Pereira em cerimônia de posse da nova diretoria do PL em Medicilândia/Fotos: Reprodução/Instagram

A pressão fez efeito. Logo chegaram à PF informações de que os foragidos estavam escondidos na selva Amazônia, no Pará. Como a PF sabia o tipo sanguíneo dos dois, encheu as matas do Pará de agentes disfarçados de agentes de saúde encarregados de combate à malária, doença endêmica naquela região. Logo os agentes recolhiam lâminas de sangue aos montes e foram isoladas aquelas correspondentes aos Alves, pai e filho. Não deu outra. Daniel, que não era pastor ainda, e o fazendeiro Francisco Matias, eram Darci e Darli. Na noite em que os agentes partiram para fazer as prisões, ocorria uma festa na zona rural de Medicilândia, onde pai e filho eram os principais dançarinos. Uma coisa, naquela noite, incomodou o velho fazendeiro Francisco, ele contaria depois já como Darli. O sanfoneiro não parava de tocar uma música cujo refrão dizia: “E nem o Chico Mendes sobreviveu…” – Aquilo me dava uma raiva, confessou Darli, numa entrevista. Após ser recapturado. Na batida policial, só Darli foi preso. Darci, o Daniel, havia saído com uma namorada momentos antes e escapou neste primeiro momento. Ele só foi localizado tempos depois em Guaíra, no Paraná, município a 680 km a oeste de Curitiba. Ambos não reagiram e se entregaram para cumprir o restante da pena em Brasília.

No dia 30 de outubro de 1994, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu manter Darli preso em Brasília, rejeitando o pedido dos seus advogados, que queriam o seu retorno à penitenciária de Rio Branco. Em entrevista em Curitiba (PR), Darci disse que não queria voltar ao Acre porque precisava de um médico para tratar a hepatite. “Quero ficar num lugar onde possa me tratar”, disse Darci, antes de embarcar para Brasília em um avião fretado pela PF. Darci disse estar muito doente. “Quero cuidar da minha saúde”. Ele afirmou que emagreceu dez quilos e que, se não estivesse doente, a PF não o pegaria. Afirmou ter ficado a maior parte do tempo numa de suas propriedades em Medicilândia, no Pará. De lá, disse que passou por Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Paraguai e, 15 dias antes de sua prisão, chegou ao Paraná. Não se sabe se, após cumprir pena, Darci voltou ao Acre. Seu pai, em 2019, foi encontrado pela reportagem do ContilNet, na Livraria Paim comprando uma Bíblia de “letras bem grandes”, como disse. Seria para enviar ao então Pastor e agora político Daniel?

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Após ser destituído do cargo de presidente do PL em Medicilândia, com pretensões de disputar às eleições municipais deste ano como candidato a prefeito, Darci Alves Pereira, atualmente conhecido como pastor Daniel, falou sobre o assunto. “Já paguei pela minha vida do passado e estou há 20 anos em liberdade. Hoje, sou outra pessoa”, declarou o político em entrevista ao Poder360, portal de notícias de Brasília, que o localizou na Amazônia.

“Sofri muita perseguição, nunca afrontei ninguém e respeito a todos. Cada um tem seu posicionamento e forma de pensar. Tem pessoas que não nos respeitam, mas faz parte da vida”, declarou.

Disse ainda ser “uma nova pessoa” depois de ter cumprido pena pelo assassinato. “Hoje sou pai de família, tenho igreja em vários lugares do país e trabalho com o resgate de famílias. Vejo-me mais uma vez perseguido, mas não esquento com isso, não. As pessoas querem me rotular no presente pelo meu passado. Essa é a política suja”, declarou.

Também disse ter sido “convidado para ser presidente do partido” em decorrência do seu “esforço” e “reconhecimento perante a sociedade”. Afirmou ter passado “por todos os trâmites da lei e agora vem essa questão”. “Isso não me atinge, tenho minha conduta e minha consciência limpa diante de Deus. Minha destituição da liderança do partido é uma decisão que cabe ao presidente [Valdemar Costa Neto] e eu respeito”, declarou.

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