Mesmo longe dos holofotes e fora do circuito mais visível da comunicação local, Jhonata Fernandes nunca parou. Persistiu. Insistiu. E seguiu gravando. Em silêncio para muitos, mas fazendo barulho para quem apertou o play. Dono do Teólogo de Quinta, o primeiro podcast em áudio produzido no Acre, o jovem construiu, ao longo de sete anos, uma trajetória marcada mais pela constância do que pelo reconhecimento imediato.
A ideia de criar o podcast nasceu de uma paixão antiga: o rádio. A memória afetiva vem da infância, das manhãs em casa com a família ouvindo a 93FM, enquanto a mãe organizava a casa ao som de programas locais. Essa ligação se fortaleceu quando, entre 2011 e 2012, Jhonata teve a oportunidade de apresentar um programa de uma hora na rádio comunitária Gameleira FM. Quando o projeto terminou, ficou a vontade de continuar falando, ouvindo e sendo ouvido.

Jhonata na Gameleira FM/Foto: Arquivo Pessoal
Antes mesmo do Teólogo de Quinta existir oficialmente, Jhonata criou um blog e gravou seu primeiro podcast ao lado de amigos de outros estados. O projeto não durou, mas deixou algo que nunca mais saiu: o desejo de fazer comunicação. Sozinho novamente, ele passou a consumir podcasts diariamente, ouvindo episódios enquanto ia trabalhar, aprendendo na prática o que ainda nem sabia direito como fazer.
Lançado em julho de 2018, o Teólogo de Quinta surgiu em um cenário em que praticamente não existiam podcasts no Acre no formato tradicional. Jhonata pesquisou, procurou referências locais, mas não encontrou algo que dialogasse com a proposta que tinha em mente. Morador da periferia de Rio Branco e sem acesso a redes de contato na comunicação local, ele voltou o olhar para fora. O resultado foi um projeto que nasceu pequeno, quase invisível, mas gigante em intenção.
As dificuldades foram muitas, principalmente tecnológicas. No início, tudo era gravado no celular, com ruídos, barulhos externos e limitações técnicas. A edição ficava por conta de Phil Santos, amigo de Recife, que por anos foi peça fundamental para que os episódios fossem ao ar. A audiência também era mínima. Poucos sabiam como ouvir um podcast naquela época, e nem mesmo a família acompanhava os programas. Ainda assim, Jhonata continuou.

Gravações do programa/Foto: Arquivo Pessoal
Com o tempo, o projeto foi ganhando forma própria. O Teólogo de Quinta se dividiu em dois programas: o monólogo, onde Jhonata compartilha reflexões, opiniões e até conselhos amorosos no quadro “Coach Amoroso”; e o Plataforma, um espaço de entrevistas em que o convidado é o verdadeiro protagonista. Inspirado por nomes da televisão como Jô Soares, Antônio Abujamra e Pedro Bial, ele criou um ambiente de escuta, onde histórias ganham tempo, profundidade e respeito.

Logo do programa: “Teólogo de Quinta”/Foto: Reprodução
O primeiro episódio não saiu de um estúdio, mas de trocas de áudio pelo WhatsApp. Mesmo assim, marcou uma virada pessoal. “Me senti um apresentador de verdade pela primeira vez”, relembra. Desde então, foram dezenas de episódios, entrevistas com personalidades nacionais que ele admirava apenas como ouvinte, como Braian Rizzo e Cristiano Machado, e também com nomes acreanos que, segundo ele, deram uma espécie de chancela ao projeto ao aceitarem o convite.
Apesar disso, o reconhecimento local nunca veio na mesma proporção. Jhonata admite que isso magoou no início. Em sete anos de produção, esta foi a primeira vez que alguém do Acre o procurou para contar sua história. Ainda assim, ele prefere não transformar a frustração em amargura. Hoje, entende como falta de interesse e segue sem tentar moldar o projeto às expectativas do mercado. Jhonata não vê o Teólogo de Quinta como um negócio. Para ele, o podcast é uma ponte. Um lugar onde pessoas interessantes, muitas vezes invisíveis, podem falar, e onde ouvintes encontram histórias reais, sem filtros de tendência ou algoritmos. O pioneirismo, segundo ele, é consequência, não objetivo.

Jhonata Fernandes, comunicador acreano/Foto: Reprodução
Entre tantos episódios, alguns marcaram de forma profunda. Um deles aconteceu quando, durante uma entrevista, foi convidado a falar com o “Jhonata criança”. Ali, ele se emocionou ao perceber que aquele menino que só queria ser ouvido, de alguma forma, conseguiu. Hoje, sua voz alcança pessoas que talvez nunca tenham tido espaço para contar suas próprias histórias.
Para o futuro, os planos são simples e fiéis à essência do projeto: manter a frequência, melhorar a qualidade técnica, seguir entrevistando quem faz sentido e, um dia, transformar essa trajetória em um livro. Sem pressa. Sem atalhos. Porque, para Jhonata Fernandes, continuar fazendo o que ama sempre foi mais importante do que ser visto fazendo.
