Marina corre risco de deixar o partido que fundou após racha com deputada e retornar ao PT

Ministra perdeu o comando nacional da Rede Sustentabilidade para o grupo da recém-deputada Heloísa Helena

A cena é rara na política, mas não inédita, a fundadora corre o risco de sair pela porta lateral do partido que ajudou a criar. Marina Silva vive hoje o momento mais delicado de sua relação com a Rede Sustentabilidade, sigla que nasceu sob sua liderança e identidade política, e que agora passa a ser comandada por um grupo que a vê mais como obstáculo do que como referência.

O estopim mais recente foi a posse de Heloísa Helena na Câmara, após assumir a vaga de Glauber Braga, afastado pelo Congresso na última semana. A mudança na correlação de forças internas, silenciosa e cirúrgica, acelerou um processo que já vinha em curso desde 2022, quando Marina aceitou o convite do presidente Lula para comandar o Ministério do Meio Ambiente.

Marina Silva ao lado de Heloísa Helena/Foto: Reprodução

Desde então, a Rede se divide em dois projetos claros. De um lado, Marina e seus aliados, defensores de uma atuação institucional, dialogando com o governo e ocupando espaços de poder. Do outro, o grupo ligado a Heloísa, que rejeita a participação no Executivo e sustenta um discurso mais ideológico, alinhado ao ecossocialismo e crítico à gestão petista.

A disputa deixou de ser apenas política e passou a ser estatutária. Mudanças aprovadas pela executiva nacional concentraram poder e reduziram a autonomia de estados e municípios. É exatamente esse ponto que aparece de forma explícita no manifesto divulgado nesta semana por aliados da ministra, que falam em perseguição interna e ruptura democrática.

“Trata-se da consolidação de um projeto de captura institucional, que verticaliza o partido, concentra poder na Executiva Nacional, enfraquece a autonomia de estados e municípios, reduz direitos dos filiados, discrimina mandatos e fragiliza a democracia interna”, diz um dos trechos do documento.

O texto vai além e aponta direcionamento claro das mudanças estatutárias. Segundo o manifesto, “por meio de emenda casuística, a direção nacional estabeleceu critérios para priorização eleitoral em 2026, aplicando a nova regra apenas a parlamentares que tenham exercido o mandato por ao menos dois anos, com o objetivo evidente de excluir Marina Silva, apesar de seu papel central na projeção nacional do partido e na construção da agenda socioambiental no país”.

A relação entre Marina e Heloísa, que já foi de convergência, hoje é de colisão aberta. A disputa pelo comando nacional da Rede neste ano consolidou a virada interna, com vitória do grupo ligado à deputada e derrota política da fundadora.

O resultado é um paradoxo incômodo. Marina, símbolo nacional da pauta ambiental e rosto mais conhecido da Rede, perdeu espaço dentro da própria sigla.

Três partidos de olho

A crise interna na Rede Sustentabilidade já colocou Marina Silva no centro de uma disputa fora do partido. Pelo menos três siglas acompanham de perto os desdobramentos e admitem interesse em filiar a ministra caso a saída se confirme.

O PT, partido do presidente Lula, vê com naturalidade a possibilidade de Marina migrar para a legenda, pela relação direta com o governo e pelo peso da agenda ambiental. O PSOL também se movimenta, apostando na identidade histórica da ministra com pautas socioambientais. Já o PSB aparece como alternativa de perfil mais institucional, considerada por aliados como um caminho de menor atrito.

Aliados avaliam que é natural a disputa por Marina. Ela tem trajetória conhecida internacionalmente, já foi apontada pela BBC como uma das poucas pessoas capazes de mudar o mundo e, nas últimas eleições, figurou entre as deputadas mais bem votadas de São Paulo, consolidando peso eleitoral e capital político.

Publicamente, Marina evita comentar sobre mudança de sigla. Nos bastidores partidários, porém, a leitura é clara, a fundadora em conflito interno virou um dos nomes mais cobiçados do momento.

Planos para a ministra

É justamente em São Paulo que o PT aparece hoje como favorito para tirar Marina Silva da Rede Sustentabilidade. A avaliação interna é de que o estado oferece o cenário mais competitivo e politicamente viável para uma mudança de sigla com alto retorno eleitoral.

A ideia em discussão é lançar Marina como candidata ao Senado, compondo uma chapa com Simone Tebet, do MDB, que ficaria com a segunda vaga. A leitura é de que as duas ministras têm densidade eleitoral, reconhecimento público e bases consolidadas no estado, o que daria força a uma aliança ampla já na largada.

Pesquisas recentes colocam Marina e Tebet em posições competitivas, o que reforça o apetite do PT em antecipar movimentos. Para dirigentes petistas, além do simbolismo político, a composição ajudaria a nacionalizar ainda mais a disputa em São Paulo e fortalecer o palanque do presidente Lula no maior colégio eleitoral do país.

A política e suas ironias

Caso a ida para o PT se confirme, Marina Silva fará um retorno simbólico ao partido que a projetou nacionalmente. Foi pelo PT que Marina se elegeu senadora e, na sequência, assumiu o Ministério do Meio Ambiente no primeiro governo do presidente Lula, onde permaneceu por mais de uma década.

Foi nesse período que Marina consolidou notoriedade nacional e internacional, associando seu nome à agenda ambiental e ganhando reconhecimento fora do país. O PT foi, portanto, a plataforma política que a transformou em uma liderança conhecida muito além das fronteiras brasileiras.

O movimento, no entanto, carrega uma ironia política. Ao retornar ao partido, Marina voltaria a conviver com parte das mesmas lideranças e estruturas internas que, anos atrás, motivaram sua saída e a levaram a construir um caminho próprio, primeiro fora do PT e depois na fundação da Rede Sustentabilidade.

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