“Motivação passional”… seria agora essa a linha de investigação que a polícia estaria considerando para o inominável assassinato do advogado, ativista e colunista Moisés Alencastro.
Como amiga-irmã do Moisés, não temo em afirmar: não foi passional!
Foi monstruoso, foi brutal, foi cruel, foi desumano… foi também um assassinato frio, calculista e premeditado. Só não foi passional.
Se o Moisés estivesse, de alguma forma, apaixonado por alguém (ou até mesmo por esse demônio de carne e osso, que o matou), certamente um de nós, entre as centenas de seus amigos mais próximos e que ele tão amorosamente conquistou, teria sabido.
Nosso Darling tinha paixão era pelos amigos! Em contrapartida, não via, numa relação a dois, nenhuma possibilidade de felicidade duradoura.
Moisés respeitava essa escolha nos outros, tanto que amava ter, ver e conviver com seus amigos, amigas e amigues, casados ou enamorados. Ele sempre me dizia, com um quê de convicção e muita tranquilidade, que isso não era pra ele. E não o é também, não sejamos hipócritas, para um monte de gente no mundo. Então, nada de estranho nisso.
Vamos dizer assim: Moisés era um “solteiro convicto”, só a título de tornar isso entendível para aqueles que gostam de adjetivar ou rotular tudo e qualquer coisa…
Ser passional não era a vibe do Moisés e, portanto, não combinaria com ele essa ser a vibe de alguém que ele escolheria para se relacionar de um jeito mais íntimo, mesmo que furtivamente.
Moisés talvez fosse, recorrendo também à uma adjetivação primária, um ser arromântico. Ou seja, ele não se debruçava nas complexidades do amor romântico.
Nosso Darling tinha e amava a liberdade como sua principal companhia de vida!
Nessa direção, penso que, liberdade, em sua amplitude emocional, acaba combinando quase que 100% com as relações entre amigos. Em parcerias afetivas, como um projeto de convivência que enfatiza uma vida em comum, moldadas ou não em convenções tradicionais ou formalidades legais, começo a acreditar que dificilmente ela, a liberdade, possa sobreviver intacta. Não sem antes ser devidamente podada ou regrada, para se ajustar a uma dinâmica que possa funcionar como “socialmente aceitável”.
Fosse uma prova de vida, Moisés, como parte de um casal, provavelmente seria jubilado. Já como amigo, nosso jubiloso Darling sempre foi aprovado com louvor… e com muito amor!
Como ressaltou com toda autoridade a Nota Pública do MPAC, a morte de Moisés Alencastro “trata-se de padrão de agressão que, com frequência, revela desprezo pela condição da vítima e se associa a crimes praticados por motivação de ódio… Típica ação de homofobia.”
E acrescenta ainda o MPAC que: “sua morte não pode ser tratada como mais um episódio banal de violência.”
Não foi passional, porque não tinha nenhum tipo de sentimento amoroso envolvido. Muito menos esse que é de paixão, que quando se transforma num sentimento desajustado, faz com que uma pessoa passe a ser consumida por uma raiva e ser movida por intensas emoções de posse, impulsos irracionais e sem controle. Nessa atmosfera, a paixão obsessiva pode sim chegar a causar estragos doentios, com consequências impensáveis.
Não foi passional e foi premeditado!
Esse monstro que, ao que foi dito, talvez fosse conhecido do Moisés, já poderia, assim, ter estado no apartamento dele outras vezes. Desde que aceitou e pôde estar ali, então, esse monstro deve ter começado a observar o ambiente, as coisas da casa…
Moisés era fashion! Tinha roupas estilosas, sapatos descolados, bons perfumes, boas coisas. Certamente esse “cenário”, enquanto se mantinha oculto no silêncio psicopático que escondia uma fachada de normalidade, fez esse monstro passar então a ambicionar o que via e a querer tomar para si, o que não lhe pertencia. Foi a partir de então, suponho, que começou a tramar possibilidades que o fariam chegar aos atos de extremo horror que, finalmente e infelizmente, sua personalidade perversa o fez consumar.
Sua premeditação não teve dia e hora marcados, mas teve os elementos definidos: como matar, o que subtrair, como fugir, como arranjar um comparsa para dividir o resultado material advindo de toda essa crueldade… Sua premeditação apenas esperou friamente pela oportunidade.
A verdade é que, em algum momento, esse monstro já sabia que trairia os bons sentimentos que Moisés sempre teve pelo próximo, e faria o que fez! Sem dó, nem piedade, nem remorso, nem humanidade, nem nada…
Não foi passional!
Abrir espaço para essa palavra, mesmo que a intenção seja a de tentar nominar ou encontrar uma explicação para essa barbárie, esse ato injustificável, é dar mais uma arma para esse assassino: desta vez para ele matar a verdade e ferir as leis. Até porque não precisa ser expert no Código Penal brasileiro para saber que, muitas vezes, na hora de se fazer justiça para uma vítima, esse “livro”, a depender de interpretações, tem lá seus becos escuros.
Não foi passional!
A morte de Moisés foi outro crime de puro ódio, praticado por uma parcela dessa sociedade patriarcal que oprime e quer perpetuar desigualdades, investindo na violência como forma de poder e de superioridade do gênero masculino heterossexual sobre outros gêneros e orientações sexuais. A ausência de punições mais severas, tem sustentado essa violência machista. E, nesse ciclo predatório, nunca se matou tantas mulheres, gays e transexuais.
Não foi passional!
Moisés foi arrancado diabolicamente de nós por essa besta-fera, que tudo o que queria era se apropriar do que não lhe pertencia: o carro, o cartão de crédito, o celular, alguns pertences…
Não foi passional!
Essa besta-fera não ama, só mata!
*Nena Mubarac, amiga-irmã do Darling


