De tempos em tempos, Brasília produz boatos que dizem muito menos sobre quem é citado e muito mais sobre o ambiente político do momento. O mais recente envolve Jorge Viana, hoje presidente da ApexBrasil, e um suposto plano para desistir da candidatura ao Senado e assumir o Ministério da Fazenda no lugar de Fernando Haddad, que poderia disputar as eleições.
O próprio Jorge tratou o assunto com ironia ao chamar a história, durante conversa com o jornalista Everton Damasceno, do ContilNet, de “piada do ano velho (2025)”. E, de fato, olhando com lupa, a especulação não se sustenta do ponto de vista político.
Jorge aparece hoje em segundo ou terceiro lugar nas pesquisas ao Senado no Acre. Em um cenário no qual cada cadeira conta, abrir mão de uma disputa com chances reais para assumir um ministério seria uma decisão difícil de explicar. Ainda mais quando o discurso do Planalto vai na direção oposta.
O presidente Lula tem sido claro ao afirmar que a prioridade do PT é eleger mais parlamentares, especialmente para o Congresso e o Senado. Não é retórica. O governo enfrentou resistências relevantes nessas casas nos últimos anos e sabe que governar sem base sólida ali custa caro.
Nesse contexto, Jorge é ativo estratégico. Não apenas pela história política, mas pela viabilidade eleitoral demonstrada até agora. Tirar alguém com esse perfil da disputa significaria abrir mão de uma chance concreta de ampliar a base progressista no Senado, justamente onde o governo mais sente dificuldades.
Há quem argumente que tudo mudaria se o pedido viesse diretamente de Lula, com quem Jorge mantém uma relação antiga e próxima. É verdade. Mas até aqui, nada indica que o presidente esteja disposto a trocar um senador potencial por um ministro, ainda mais em um momento em que a lógica eleitoral pesa mais do que rearranjos na Esplanada.
No fim, o boato parece cumprir outro papel: testar cenários, medir reações e, talvez, movimentar o debate político no Acre e em Brasília. Jorge, por enquanto, segue onde está e, ao que tudo indica, segue também no jogo eleitoral. O resto é ruído.
Não se sustenta
Com duas cadeiras em disputa no Senado, uma eventual desistência de Jorge Viana significaria, na prática, entregar de bandeja o jogo para Gladson Cameli e Márcio Bittar, que lideram as últimas pesquisas.
Os dois não são do campo da esquerda e, se eleitos, a tendência é de oposição ao governo Lula no Senado. Ou seja, do ponto de vista político e estratégico, o boato simplesmente não se sustenta.
Há ainda outro ponto central. Sem Jorge na disputa, não existe hoje nenhum nome do campo progressista no Acre com chances reais de vitória ao Senado. Retirá-lo do cenário seria abrir mão da única possibilidade concreta de eleger um aliado do Planalto no estado.
Largou o PT
O nome de Virgílio Viana, filho do ex-governador Tião Viana, começa a circular como candidato a deputado federal nas eleições deste ano. A informação, no entanto, vem acompanhada de um detalhe que chamou atenção no meio político.
Virgílio deve disputar o mandato pelo PV, e não pelo PT, legenda que seu pai e seu tio ajudaram a consolidar e que comandou o Acre por cerca de duas décadas.
A escolha partidária não caiu exatamente bem entre setores do petismo local, que veem no movimento um sinal claro de distanciamento político. No fim das contas, a decisão sugere que, ao menos para a próxima geração, o petismo não será necessariamente de berço.
Esperando sentados
Alan Rick e Mailza Assis seguem, até agora, à espera de uma definição do MDB sobre quem o partido vai apoiar na disputa pelo governo do Acre neste ano.
A sinalização interna era de que o MDB oficializaria seu apoio ainda no fim de 2025. O calendário virou, o ano começou, e a decisão continua fora do papel.
Enquanto isso, os pré-candidatos aguardam, sentados, um movimento que já deveria ter acontecido. O silêncio do partido começa a pesar e alimenta a percepção de indefinição em um jogo que, para os demais campos, já está em andamento.
Ponto para Pedro Pascoal
Uma operação da Polícia Civil revelou um esquema de desvio de medicamentos na Fundhacre, com prejuízo estimado em mais de R$ 1 milhão aos cofres públicos.
O que merece registro é a origem da investigação. As apurações tiveram início a partir de uma denúncia recebida pelo próprio secretário de Saúde, Pedro Pascoal, que acionou a polícia e pediu a abertura do inquérito.
Em tempos de desconfiança generalizada, a postura do secretário vai na direção oposta, transparência, responsabilidade e disposição para enfrentar irregularidades, mesmo quando isso expõe problemas dentro da própria estrutura. É uma atitude que fortalece a gestão pública e sinaliza que denúncias não serão varridas para debaixo do tapete.
Uma alternativa
O início da cobrança de pedágio na BR-364, em Rondônia, acende um alerta que exige reação imediata da bancada federal do Acre.
As previsões indicam impacto direto no preço de produtos que chegam ao estado, aumento que tende a ser sentido principalmente pelo consumidor final. O Acre depende quase integralmente da BR-364 para o abastecimento, o que torna qualquer elevação no custo do transporte um problema econômico e social.
Cabe aos deputados federais e senadores do estado atuar de forma firme para defender os interesses do Acre, seja cobrando medidas compensatórias, seja buscando alternativas que evitem que a conta recaia, mais uma vez, sobre a população.

