A eleição para o governo do Acre em 2026 apresenta um dado político curioso e incontornável: as três pré-candidaturas hoje consideradas competitivas orbitam o mesmo campo ideológico. A vice-governadora Mailza Assis, o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, e o senador Alan Rick disputam o protagonismo dentro de um espectro claramente alinhado ao bolsonarismo. Em um estado que foi governado por duas décadas pelo PT, a configuração atual não é episódica. Ela é resultado de um processo político e social acumulado ao longo dos últimos dez anos.
O Acre foi administrado pelo PT entre 1999 e 2018, com Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana. Esse ciclo produziu avanços reconhecidos em áreas como meio ambiente e políticas sociais, mas também enfrentou desgaste progressivo. A literatura sobre ciclos políticos, especialmente a teoria da alternância no poder desenvolvida por autores como Samuel Huntington e adaptada ao contexto latino-americano por Scott Mainwaring, aponta que sistemas partidários subnacionais tendem a sofrer erosão após longos períodos de hegemonia. O eleitorado passa a associar problemas estruturais ao grupo que permanece no poder, ainda que parte desses problemas não tenha origem exclusiva naquela gestão.
Em 2018, no auge da polarização nacional e da ascensão de Jair Bolsonaro, o Acre acompanhou a tendência conservadora observada em vários estados. Bolsonaro venceu no estado com ampla margem no segundo turno, superando 70 por cento dos votos válidos. O desempenho consolidou uma inflexão ideológica que já vinha se desenhando desde 2016, quando o discurso antipetista ganhou força nas redes sociais e nos segmentos evangélicos, empresariais e de segurança pública.
O que se observa agora é a consolidação dessa guinada. Mailza Assis, embora construa uma imagem institucional mais moderada, sempre se declarou bolsonarista e tem buscado reforçar essa identidade. O recente encontro com Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, e a sinalização de apoio de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, indicam que sua estratégia passa por ancorar a disputa estadual na conexão com o campo conservador nacional.
Tião Bocalom, filiado ao PL, carrega a marca partidária mais diretamente associada a Bolsonaro. Mesmo com especulações sobre eventual mudança de sigla por questões internas, sua identidade política é vinculada ao bolsonarismo, sobretudo desde 2024, quando disputou a reeleição para a Prefeitura de Rio Branco pela sigla. Já o senador Alan Rick, do Republicanos, partido historicamente alinhado à direita conservadora e que integrou a base bolsonarista no Congresso, declara-se apoiador do ex-presidente e busca ocupar um espaço competitivo nesse mesmo eleitorado.
O que explica três candidaturas competitivas situadas no mesmo campo ideológico?
Primeiro, a reconfiguração do sistema partidário local. O PT, que estruturou o chamado Campo Popular no Acre por duas décadas, perdeu capilaridade municipal, quadros intermediários e capacidade de mobilização eleitoral comparável ao período de hegemonia. A fragmentação das forças de centro e centro-esquerda abriu espaço para que a direita disputasse entre si o eleitorado majoritário.
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Segundo, a mudança no perfil do eleitorado. Pesquisas nacionais do Datafolha e do Ipec nos últimos ciclos eleitorais mostram que o bolsonarismo consolidou bases estáveis entre eleitores evangélicos, homens de renda média e eleitores com maior rejeição ao PT. No Acre, onde o crescimento das igrejas evangélicas foi expressivo nas últimas duas décadas, essa base encontra terreno fértil. A pauta de costumes, a retórica de segurança pública e o discurso contra a “velha política” ainda mobilizam parcelas relevantes da população.
Terceiro, a lógica da polarização afetiva, conceito trabalhado por cientistas políticos como Shanto Iyengar. Nesse modelo, o voto não é movido apenas por adesão programática, mas por rejeição intensa ao campo adversário. Mesmo após oito anos fora do governo estadual, o PT ainda funciona como polo de rejeição para parte do eleitorado acreano. Isso favorece candidaturas que se apresentem como continuidade ou aprofundamento da agenda conservadora.
Há ainda um elemento estratégico. Em cenários nos quais um campo ideológico se torna majoritário, a disputa tende a ocorrer internamente, por diferenciação de perfil, gestão ou estilo, e não por ruptura programática. Mailza pode explorar a condição de continuidade administrativa e articulação nacional. Bocalom aposta na vitrine da prefeitura da capital. Alan Rick se posiciona como alternativa com mandato federal e discurso de renovação dentro do mesmo campo.
A aparente homogeneidade ideológica, portanto, não é ausência de disputa. É sinal de que o eixo da competição se deslocou. Se entre 1998 e 2014 o debate central no Acre se dava dentro do campo progressista, hoje ele se dá predominantemente dentro do campo conservador.
Resta saber se haverá espaço para o surgimento de uma candidatura competitiva fora desse espectro ou se 2026 consolidará o Acre como um dos estados mais alinhados à direita bolsonarista no cenário nacional. A resposta dependerá menos de declarações de apoio e mais da capacidade de cada grupo de dialogar com as demandas da população, como emprego, infraestrutura, saúde e segurança. Ideologia estrutura o campo. Gestão e narrativa definem o vencedor.
