“Sem estrutura, tudo colapsa”: a proteína microscópica que virou símbolo do nosso tempo

A laminina não estampa capas, não gera polêmica, não viraliza facilmente

Mas o que torna essa proteína tão simbólica não é apenas sua função biológica.
Mas o que torna essa proteína tão simbólica não é apenas sua função biológica | Foto: Reprodução

Nos últimos meses, um nome quase invisível da biologia começou a aparecer em debates e colunas especializadas. E não é exagero: não estamos falando de um novo gadget ou de uma tendência passageira, mas de uma descoberta que toca em algo muito maior, a pergunta silenciosa sobre o que, afinal, nos mantém de pé.

O nome dela é laminina.

Você talvez nunca tenha ouvido falar. E isso faz sentido. A laminina não estampa capas, não gera polêmica, não viraliza facilmente. Mas ela está aí, dentro de você, agora sustentando o que parece firme.

A laminina é uma proteína estrutural essencial. Ela conecta células, organiza tecidos e mantém o corpo coeso. Sem ela, existe matéria, mas não existe estabilidade. O que parece sólido começa a se desfazer.

Foi identificada em 1979 pelo pesquisador Rudolf Timpl e sua equipe, ao estudarem as membranas basais dos tecidos. Desde então, cientistas do mundo inteiro vêm desvendando suas múltiplas funções. Hoje, pesquisas exploram seu potencial na regeneração de tecidos nervosos e musculares, inclusive em tratamentos experimentais para lesões graves da medula espinhal.

No Brasil, a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, desenvolveu uma versão adaptada chamada polilaminina, com potencial para ajudar na reconexão celular em áreas lesionadas do sistema nervoso.

Mas o que torna essa proteína tão simbólica não é apenas sua função biológica.

É o que ela revela sobre nós.

Vivemos em uma cultura obcecada pela forma. Diplomas na parede. Perfis organizados. Resultados exibidos. Opiniões fortes. Aparência de controle.

Por fora, muitas vezes parece tudo alinhado.

Mas por dentro?

Quantas vezes você já sentiu que estava se segurando para não desmoronar? Que organiza a agenda, cumpre metas, responde mensagens e ainda assim algo parece fora do lugar?

A laminina nos ensina uma verdade desconfortável: não basta ter forma. É preciso ter fundamento.

Ela é invisível e ainda assim indispensável. Silenciosa e ainda assim determinante. Não aparece, mas sustenta. Não chama atenção, mas impede o colapso.

Existe uma espécie de arquitetura interior que também nos mantém de pé. Não é currículo. Não é aprovação. Não é aplauso. É algo mais profundo. Uma base interna que organiza emoções, sustenta decisões, alinha direção.

Quando essa base está firme, até as tempestades encontram resistência.

Quando não está, tudo pode continuar aparentemente normal… mas por dentro começa a ruir.

Talvez o fascínio em torno da laminina não seja apenas científico. Talvez seja existencial.

Porque, no fim das contas, a pergunta que ecoa não é sobre biologia.

É sobre estrutura.

O que sustenta você quando ninguém está olhando?

O que mantém sua integridade quando as circunstâncias mudam?

O que organiza seu interior quando o exterior está em caos?

Sem estrutura, tudo colapsa.

Com estrutura, até o invisível sustenta o impossível.

E talvez seja hora de prestarmos mais atenção ao que não aparece porque é ali que a vida, de fato, se mantém.

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