Deixar ir: a arte de não correr atrás da cobra

Inspirado na Ministração da Pra Kátia Soares

Deixar ir: a arte de não correr atrás da cobra
Guy holding autumn leave in the park

histórias antigas que, mesmo atravessando séculos, continuam nos mirando por dentro. Não porque sejam sagradas, até poderia ser, mas nesse caso específico, porque são humanas demais: família, disputa, traição, perda, reinvenção. A trajetória de José, sim, aquele personagem que muitos conheceram ainda criança ouvindo histórias ilustradas, é uma dessas narrativas que resiste ao tempo não pelos milagres, mas pelas emoções que reconhecemos no espelho.

José foi um jovem com um futuro brilhante, ou pelo menos acreditava nisso. Sonhou alto, falou demais, irritou quem já nutria certo incômodo por ele e pagou o preço.

Ao invés de admiração, despertou inveja. Ao invés de apoio, provocou rejeição. A história continua como tantas outras que poderíamos ouvir em rodas de família ou em consultórios de terapia: alianças rompidas, ressentimento, irmãos que não se suportam, gente que deseja o mal de gente que ama.

O brilho virou queda. A queda virou dor. E a dor poderia ter virado destino.

Mas há um ponto de virada, e esse ponto é o que faz desta história algo universal: José escolheu não carregar o veneno.

Quando o problema não é a cobra, mas a perseguição a ela

Imaginar que alguém foi ferido por uma cobra é uma metáfora tão direta quanto incômoda. A picada dói, mas é a reação de correr atrás do bicho para pedir entender o porquê que aconteceu, é que mata. Enquanto a pessoa tenta entender o porquê da traição, o veneno circula, silencioso, devastador.

Quantas vezes fazemos exatamente isso?

Refazemos cenas, revemos diálogos, reencenamos o trauma. Dias, meses, anos presos ao mesmo enredo. Somos vítimas de uma ferida que já aconteceu, mas algo dentro de nós insiste em revisitar o passado como se a repetição pudesse produzir uma cura que só nasce do contrário: do esquecimento.

Não aquele esquecimento romântico, mágico, de quem de repente não lembra mais.

Mas o esquecimento ativo, maduro, consciente, aquele que significa deixar ir.

O antídoto existe, mas é preciso usá-lo

Em algum momento da vida, José, adulto, calejado, reerguido, escolheu dar nomes aos filhos que sintetizavam sua decisão de sobreviver ao que viveu: esquecer e prosperar. E aqui, esquecer não é apagar, mas recusar-se a reabrir a ferida.
Porque ressentimento, palavra tão conhecida quanto mal compreendida, significa exatamente isso: sentir de novo.

Re-sentir.

Tornar a sentir.

Prolongar o sofrimento como um hábito.

É duro admitir, mas muitas vezes somos nós que mantemos a ferida aberta, esperando a maturidade de quem nunca a terá, esperando o pedido de perdão de quem não se sente culpado, aguardando reparações que talvez jamais venham.
E enquanto esperamos, o veneno trabalha.

A pergunta incômoda, porém, libertadora, é simples: Você quer entender a cobra ou quer sobreviver à picada?

A grande virada: deixar sair para seguir

A maturidade não apaga dor, ela ressignifica. Décadas depois, quando reencontra aqueles que o traíram, José, agora pacificado, não nega o mal que sofreu. Ele não romantiza, não finge que nada aconteceu, não se torna bobo nem permissivo. Ele simplesmente coloca cada coisa no seu lugar: o mal onde houve mal, e a vida onde ele escolheu viver.

O gesto mais nobre não é perdoar — essa palavra, tão desgastada, tão complexa mas seguir.

Seguir sem se justificar.

Seguir sem provar nada para ninguém.

Seguir sem a obsessão de reescrever o que ficou para trás.

Porque seguir é um direito.

E seguir é uma escolha.

Talvez você seja a vítima e exatamente por isso merece a liberdade

Há um equívoco comum: achar que só quem errou é que precisa deixar passar. Não. Às vezes, quem mais precisa liberar o passado é justamente quem foi ferido. Porque a dor aprisiona tanto quanto a culpa, às vezes até mais.

Você não precisa de explicações.

Não precisa de arrependimentos alheios.

Não precisa de “justiça poética”.

Você precisa apenas permitir-se o que José permitiu a si mesmo: não correr atrás da cobra.

A porta está aberta.

A cura existe.

A vida chama, não lá atrás, mas adiante.

Solte a memória que dói.

Desocupe as mãos para o que ainda pode chegar.

E siga. Não por quem o feriu, mas por quem você pode ser depois da ferida.

PUBLICIDADE

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.