Em um país onde mais de 1,7 milhão de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento, há homens que seguem na direção oposta: assumem sozinhos a responsabilidade de criar os filhos e colocam a paternidade no centro da própria rotina.
Essa realidade tem crescido no Brasil. Dados do Censo Demográfico mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 22 anos, aumentou 33% o número de homens que vivem com os filhos sem uma companheira.
Neste Dia dos Pais, a Itatiaia conversou com pais que enfrentam, diariamente, os desafios de criar os filhos sozinhos. São histórias diferentes, marcadas por escolhas, circunstâncias inesperadas, perdas e, acima de tudo, pela dedicação aos filhos.
‘Eu cuido dela com prazer, com honra mesmo’
Renato Gomes da Silva deixou o trabalho como ajudante de pedreiro para se dedicar integralmente à filha, Renata, que tem deficiência. Quando a menina tinha cerca de 2 anos, a mãe decidiu deixá-la sob os cuidados do pai.
“Eu trabalhava de ajudante, pedreiro. Eu parei de trabalhar para ficar com a Renata. No começo não foi fácil. Na primeira semana, eu trabalhava chorando”, contou.
A mãe da menina chegou a dizer que Renato não conseguiria ficar com a filha por muito tempo. Quatro anos depois, ele continua responsável pela criação da criança.
“Minha ex-companheira deixou ela comigo e falou que não ia dar conta. Disse que em três meses eu ia entregar ela. Mas, graças a Deus, já tem quatro anos que eu estou firme e forte com ela”, relatou.
Sem poder manter um emprego fixo, Renato conta com um benefício recebido pela filha e, quando consegue alguém para ficar com ela, faz trabalhos temporários para complementar a renda.
“Eu não tenho como trabalhar, eu fico com ela. Quando tenho uma companheira que está em casa e fica com ela, costumo capinar um lote, pegar um servicinho de ajudante, só para complementar o dinheiro”, explicou.
Para Renato, a rotina também significa exercer sozinho diferentes papéis na vida da filha.
“Você faz o papel de pai e de mãe”, afirmou. “Esse é meu xodó.”
Ele diz que a filha transformou sua vida e que pretende permanecer ao lado dela.
“Eu estou aqui presente, estou com ela até o final. É uma menina muito boa, muito tranquila. Para dormir, aquele sorriso mais gostoso; para acordar, aquele sorriso mais maravilhoso. É até sem palavras”, contou emocionado.
Pai solo após uma perda
O jornalista Sirdes Lopes se tornou pai solo em 2023. Na época, a filha, Laura Matoso Lopes, tinha apenas 2 anos e ainda era amamentada.
Além de lidar com a própria dor, Sirdes precisou enfrentar o desafio de acolher emocionalmente a filha. A mãe da menina, Débora, morreu após uma doença descoberta durante a gravidez do segundo filho do casal. A criança também não resistiu.
“Quando eu fiquei solo, ela tinha 2 anos, ela amamentava. No início foi um pouco mais delicado porque, além das minhas questões emocionais, eu também tinha que lidar e responder às questões emocionais da minha criança”, contou.
Hoje, aos 5 anos, Laura leva uma vida feliz ao lado do pai. A rotina dos dois começa cedo e é dividida entre cuidados com a casa, escola, trabalho e atividades da criança.
“Eu acordo, preparo o café, nós tomamos nosso café da manhã. Depois, a gente vai para uma atividade externa dela, levo ela para a escola, tenho meu tempo de trabalho e depois vou buscá-la”, explicou.
Apesar dos desafios, Sirdes afirma que a experiência também criou uma relação de cumplicidade entre pai e filha.
“É uma vida que tem muitos desafios, mas uma vida que tem uma beleza muito particular. Existe uma cumplicidade muito grande com a minha criança”, disse.
Para ele, a família formada por ele e Laura encontrou uma nova forma de ser feliz.
“Cada família tem as suas questões. Eu e a Laura temos as nossas, mas nós somos uma família muito feliz.”
Do exterior para a vida ao lado do filho
A história do estudante de medicina Lucas Costa Alves começou ainda durante a gravidez da ex-companheira. Ao saber que seria pai, ele decidiu viajar para os Estados Unidos para juntar dinheiro e garantir melhores condições para a chegada do filho, Zael Costa Menezes.
“Quando a mãe dele me contou que estava grávida, eu renovei meu passaporte, fui aos Estados Unidos na intenção de poder juntar um dinheiro para ter condição de dar início aos cuidados e à vida com meu filho e a mãe dele”, contou.
Lucas voltou ao Brasil para acompanhar o nascimento e, durante os primeiros anos do menino, alternou períodos entre os Estados Unidos e o país.
Quando Zael tinha cerca de 4 anos, Lucas decidiu que não voltaria mais ao exterior sem o filho. No fim de 2023, a mãe da criança decidiu que o menino passaria a morar com o pai.
Os dois viviam em Belo Horizonte quando Lucas decidiu prestar o Enem. Depois de conseguir uma boa nota, ele entrou para a faculdade de medicina e conseguiu transferência para Valença, no interior do Rio de Janeiro. Pai e filho se mudaram juntos.
“Ele é meu companheiro e eu sou companheiro dele. Temos uma vida muito legal”, afirmou.
A rotina de estudos e criação do filho não é simples, mas Lucas diz que a experiência é também uma fonte diária de motivação.
“Claro que não é fácil, mas é muito, muito prazeroso. Eu só tenho que agradecer por ter a companhia de um rapaz tão dócil, tão inteligente, tão bonito, tão educado e que me faz, a cada dia, buscar ser o melhor de mim.”
