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A guerra entre os Estados Unidos e o Irã necessita desesperadamente de um novo pensamento.
Apesar dos novos ataques americanos na quarta-feira (29), após o aviso do presidente americano Donald Trump de que o Irã merece mais uma “surra”, ele ainda não demonstrou ser capaz convencer Teerã a voltar às negociações por meio de bombardeios.
Mas a “diplomacia” que ele exaltou como capaz de trazer paz histórica ao Oriente Médio também fracassou quando um memorando de entendimento redigido de forma vaga entrou em colapso.
E suas opções para mudar a equação — arriscar a vida de centenas de soldados americanos em uma guerra terrestre ou reconhecer o controle de Teerã sobre o Estreito de Ormuz — são tão inaceitáveis que a expressão “não há boas opções” tornou-se um clichê.
“Estamos realmente em apuros”, disse Lyle Goldstein, diretor de Engajamento na Ásia do think tank Defense Priorities, com sede nos EUA.
Os custos da guerra no Irã não se limitam aos participantes. A reação política e econômica está crescendo no Oriente Médio e na Europa — intensificando a pressão sobre partes externas para tentar reativar a diplomacia.
Se o estreito permanecer uma zona proibida para a maioria dos navios civis, as graves repercussões da guerra vão se agravar, à medida que as reservas globais de petróleo se esgotam, os preços de produtos derivados, como diesel e fertilizantes, disparam, e uma potencial escassez de gás natural liquefeito se aproxima na Europa neste inverno.
A ascensão dos países do Golfo como destinos de luxo para turistas e expatriados foi destruída pela guerra. Governos europeus enfraquecidos estão sendo penalizados pelos aumentos no custo de vida relacionados à guerra.
Em Washington, a guerra ameaça definir o segundo mandato de Trump.
Uma nova pesquisa CNN/SSRS divulgada na quarta-feira (29) mostrou que a aprovação pública de suas políticas em relação a Teerã e aos preços da gasolina está abaixo de 30%.
Esses números podem ser desastrosos para os republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro, além de mostrarem que o público não vê resultados da promessa que Trump fez com os eleitores em 2024 para tornar a vida mais acessível.
O desfecho no estreito é visível — o difícil é chegar lá
A arte da diplomacia, quando praticada de forma clássica, consiste em abrir espaço, oferecer incentivos e identificar o momento em que os adversários podem ser persuadidos a recuar.
Como ocorre em muitas situações de conflito, é possível vislumbrar o eventual arcabouço necessário para conter os combates e abrir caminho para negociações sobre as questões mais fundamentais, como o programa nuclear do Irã. Nesse caso, poderia envolver um compromisso pelo qual os Estados Unidos evitariam admitir que sofreram uma derrota estratégica diante do controle efetivo do estreito pelo Irã, enquanto o Irã poderia argumentar que preservou seu principal ganho de uma guerra que devastou seus líderes e suas forças militares.
Mas construir um caminho político e diplomático até esse ponto será perigoso. E o processo de desescalada exigiria um plano para a gestão futura do estreito e, provavelmente, o envolvimento de potências externas para garantir a segurança do tráfego marítimo civil.
Em um momento diplomaticamente árido, há dois lampejos de esperança.
Um deles é um conceito emergente para uma instituição internacional sob a qual as nações do Golfo, incluindo o Irã, gerenciariam e monetizariam conjuntamente o comércio, mas de forma a estabilizar os preços globais do petróleo. Ironicamente, o caminho a seguir pode estar escondido à vista de todos no MOU descartado, que conclamava o Irã e Omã a “definir a futura administração e os serviços marítimos no Estreito de Ormuz, em discussões com outros Estados litorâneos do Golfo Pérsico”.
A outra eventual abertura também pode vir de fora dos EUA. Um plano divulgado esta semana para uma conferência internacional sediada pela Grã-Bretanha para discutir a proteção de navios no estreito não se concretizou. Mas a ideia geral de ampliar a diplomacia provavelmente voltará à tona, não menos porque nações terceiras, especialmente as da Europa e do Leste Asiático, têm muito a perder com o status quo.
A única diplomacia anunciada publicamente nos últimos dias foram as discussões em nível de vice-ministro das Relações Exteriores entre o Irã e Omã, que também faz fronteira com o estreito, sobre possíveis formas de gerir o tráfego marítimo caso ele seja reaberto.
A CNN noticiou esta semana que Omã resistiu à imposição de taxas de trânsito para petroleiros no estreito, defendida por Teerã, sob o argumento de que o direito internacional estipula a passagem livre e segura pelos estreitos utilizados para a navegação internacional. Mas o governo está promovendo um compromisso que prevê uma taxa por “serviços marítimos” que pode oferecer uma solução alternativa.
Colocando um preço na livre navegação
A ideia de uma “taxa de Ormuz” é examinada em um artigo publicado pelo think tank londrino Bourse and Bazaar Foundation. A proposta não se trata de um pedágio para que embarcações utilizem o estreito, mas de uma contribuição para a gestão da via navegável pelos estados com litoral no Golfo Pérsico.
Um modelo seria baseado em arranjos semelhantes no Estreito de Malaca, que conecta o Oceano Índico ao Oceano Pacífico, e envolveria Singapura, Indonésia e Malásia.
O artigo também cita as taxas cobradas pelo Porto de Roterdão, nos Países Baixos, para modelar o possível alcance das receitas. Lá, os maiores petroleiros estão sujeitos a uma taxa de “sustentabilidade” de cerca de US$ 0,08 (aproximadamente R$ 0,41) por tonelada métrica bruta de carga.
Se uma cobrança semelhante fosse aplicada no Golfo Pérsico, o novo organismo institucional arrecadaria cerca de US$ 26 milhões (equivalente a cerca de 130 milhões de reais) por ano, calculam os autores.
A ideia pode ser viável, mesmo que o Irã exigisse retornos muito maiores, já que até mesmo o acréscimo de alguns dólares por barril de petróleo seria economicamente preferável à volatilidade nos preços do petróleo — que dispararam quase 8,0% somente na quarta-feira, ultrapassando US$ 90 (460 reais) por barril.
Esfandyar Batmanghelidj, um dos autores do artigo, afirmou que Teerã pode ser mais flexível quanto ao potencial monetário de tal esquema do que alguns observadores externos acreditam. “Na medida em que o Irã se preocupa com sua situação econômica, há objetivos muito maiores do que tentar impor uma taxa no Estreito de Ormuz”, disse ele. Qualquer abertura diplomática com os EUA poderia resultar, por exemplo, no levantamento de sanções ou no livre fluxo das exportações de petróleo iraniano.
Batmanghelidj também sugeriu que o arranjo poderia oferecer a Teerã um impulso estratégico e “deixar claro que o estreito não voltará ao status que tinha antes da guerra, como forma de sublinhar que não foi derrotado, que foi capaz de preservar sua agência e seu poder ao longo do conflito com os EUA”.
De forma mais ampla, um plano multinacional para a gestão do estreito poderia começar a responder a uma questão crescente na região do Golfo: como os estados responderão ao desafio representado por um Irã mais confiante após a guerra e consolidarão qualquer paz eventual?
Ainda assim, o retorno de Trump aos ataques ao Irã significa que qualquer diplomacia significativa permanecerá suspensa. E mesmo um acordo para estabilizar o estreito apenas resolveria uma nova crise gerada pela guerra, sem sequer se aproximar de atender às preocupações dos EUA com os programas nuclear e de mísseis do Irã.
Mas Goldstein disse que a escassez de opções de Trump pode significar que um compromisso se torna inevitável, apesar de suas consideráveis desvantagens.
“Este será o mais doloroso de todos os compromissos, precisamente porque nós, como nação, nós no Ocidente, como as principais potências do mundo, insistimos por um tempo muito, muito longo que a liberdade de navegação era um de nossos princípios fundamentais”, disse ele.
Por que Trump pode acabar precisando da Europa
A maioria dos presidentes modernos já teria recorrido aos aliados dos EUA para obter ajuda com o Irã como forma de ampliar a pressão diplomática. A Europa, por exemplo, foi um motor vital da diplomacia que levou ao acordo nuclear do governo Obama.
Mas Trump danificou profundamente a aliança transatlântica, tratando aliados de longa data como adversários com suas rajadas de tarifas e insultos. Ele se recusou a consultar muitos dos aliados dos EUA antes de lançar uma guerra que eles consideravam ilegal e imprudente. Mas também os repreendeu por não aderirem à ação militar americana.
O resultado é que os politicamente fracos líderes europeus têm poucos incentivos para ajudá-lo agora. E há um limite para o que os aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) podem fazer.
Ofertas de potências europeias para desdobrar seus significativos recursos de remoção de minas no estreito, por exemplo, foram condicionadas ao fim de todas as hostilidades.
Mas qualquer iniciativa europeia no Oriente Médio também esbarraria no mesmo impedimento que a de Omã — uma estratégia americana diplomática volátil e confusa de uma superpotência cuja política externa parece mudar conforme os humores de Trump.
“Uma coisa é pedir à Europa que ajude com uma estratégia acordada, mas não há estratégia acordada. Na verdade, não está claro qual é a estratégia americana neste momento”, disse Ian Lesser, pesquisador sênior do German Marshall Fund of the United States, com sede em Bruxelas.
A desconfiança semelhante em relação aos motivos americanos também poderia prejudicar a diplomacia.
“Minhas conversas com partes interessadas em Teerã sugerem que eles não estão rejeitando esta proposta que Omã apresentou”, disse Batmanghelidj, acrescentando que o Irã estava preocupado em abrir mão do controle do estreito enquanto os EUA ainda estavam escalando.
“O Irã provavelmente permitirá que o estreito se normalize em algum momento. É do interesse deles fazê-lo. Eles provavelmente o farão em algum formato regional, mas não vão fazê-lo até que achem que os americanos aprenderam sua lição”.
Assim como Omã, os outros Estados do Golfo e as potências europeias enfrentam um preço enorme pela incapacidade de Trump de encerrar sua guerra. Se Washington e Teerã não conseguirem escapar em breve de seu ciclo destrutivo e autorreforçador, os demais não terão escolha senão ajudá-los.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por afonsobenites.
