Todos os dias, acordamos e nos tornamos números. Estatísticas de feminicídio, índices de importunação sexual e porcentagens de desigualdade salarial estampam as páginas dos jornais com uma regularidade assustadora. Diante desse cenário, uma pergunta amarga insiste em ecoar: será que nossa luta está, de fato, valendo a pena?
A sensação, muitas vezes, é de que estamos subindo uma escada rolante que desce em alta velocidade. Na medida em que ocupamos espaços — na política, em diretorias de empresas e em entidades de classe — a reação do patriarcado se torna mais violenta. Parece haver um “pedágio” cruel para a nossa emancipação: quanto mais visíveis somos, mais nos tornamos alvos de assédio, descredibilização e violência física.
A insegurança é uma sombra constante. Não estamos seguras nas ruas, mas também não estamos no recôndito dos nossos lares. O perigo nos espreita nas escolas, nas faculdades, no ambiente de trabalho e até nos círculos de “amizade”. É uma realidade universal e dolorosa: ao longo da vida, toda mulher, sem exceção, já sofreu ou sofrerá algum tipo de violência apenas por ser mulher. A Resistência se torna uma forma de sobrevivência.
Será que a luta vale a pena? A resposta reside no fato de que não lutar não é uma opção. O retrocesso é o único destino do silêncio.
Lutamos pelas que foram caladas e cujas vozes agora ecoam em nossos gritos por justiça. Lutamos para que as próximas gerações não vejam o espaço público como um campo de batalha, mas como um direito adquirido. O aumento das denúncias, embora doloroso, mostra que o véu da “normalidade” sobre a violência foi rasgado. Não aceitamos mais o inaceitável.
Nossa luta vale a pena porque ela é a única ferramenta capaz de transformar a estatística em história de vida. Não lutamos apenas por espaços, lutamos pelo direito básico de existir sem medo. Enquanto houver uma mulher em perigo, nossa voz será o escudo necessário.
