20/08/2026

MPF pede R$ 14,8 mi de faculdade por venda de corpos do Hospital Colônia de Barbacena

Ação civil pública aponta que ao menos 105 pacientes psiquiátricos foram comercializados por 50 cruzeiros novos

Por Redação ContilNet
Ação civil pública pede indenização coletiva, criação de memorial e mudanças nas regras de uso de cadáveres pelo MEC/ Foto: Reprodução

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública cobrança de reparação histórica pela comercialização e uso didático de corpos de pacientes do antigo Hospital Colônia de Barbacena, na Região Central de Minas Gerais. A medida atinge a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, além da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), do governo estadual e da União.

Documentos reunidos na investigação mostram que pelo menos 105 cadáveres de pessoas internadas compulsoriamente foram entregues à instituição de ensino de Belo Horizonte entre 1971 e 1975 para atividades de dissecção e estudos médicos. Cada corpo era vendido por 50 cruzeiros novos, valor cobrado pelo hospital sob a justificativa de cobrir custos de conservação e transporte.

Os órgãos processados foram procurados para se manifestar. A Feluma e a Faculdade de Ciências Médicas declararam que atuam em cooperação com as investigações e observam normas éticas. A Fhemig informou que aguarda notificação judicial para se pronunciar. O espaço segue aberto para manifestação da União e do estado de Minas Gerais.

O processo pede a condenação dos réus ao pagamento de R$ 13,7 milhões por danos morais coletivos, montante calculado a partir dos ganhos obtidos pela instituição com o uso dos cadáveres. A petição estabelece ainda repasse de R$ 1,1 milhão pela Feluma para o financiamento de pesquisas acadêmicas sobre o sistema manicomial.

O MPF solicita a realização de pedidos formais de desculpas, a criação de um memorial na capital mineira e a digitalização do acervo histórico do hospital. No âmbito do ensino, os procuradores defendem a inclusão de temas como direitos humanos, bioética e violência asilar na grade curricular de medicina.

O órgão acionou também o Ministério da Educação (MEC) para estabelecer diretrizes de rastreabilidade e fiscalização no uso de cadáveres para ensino no país. A ação inclui a vedação de cortes orçamentários na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por 15 anos pela União e pelo estado.

O Hospital Colônia de Barbacena foi o principal símbolo do sistema psiquiátrico manicomial do país, marcado pelo isolamento compulsório de indivíduos considerados marginalizados pela sociedade. Reportagens e estudos históricos estimam em 60 mil o total de mortos na unidade em decorrência de maus-tratos, fome e frio.

Em levantamento amplo da Procuradoria da República, foi identificado o envio de mais de 1.800 corpos do manicômio para diversas faculdades de medicina do país ao longo de décadas. Outras universidades de Minas Gerais, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), já fecharam acordos administrativos e realizaram pedidos públicos de desculpas. A ação civil contra a Faculdade de Ciências Médicas ocorreu após a falta de consenso em tratativas extrajudiciais.

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