13/08/2026

Assassinatos e invasões: relatório revela violência contra indígenas no Acre

Relatório do Cimi foi divulgado nesta quinta e revelou que o Acre teve três homicídios contra indígenas em 2025

Por Matheus Mello, ContilNet
Relatório foi divulgado nesta quinta/ Foto: Reprodução

O Acre registrou três assassinatos de indígenas e duas tentativas de homicídio contra integrantes de povos originários ao longo de 2025, segundo o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025, divulgado nesta quinta-feira (13) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Os dados colocam o Acre entre os estados brasileiros onde foram registrados casos de violência letal e tentativas de assassinato contra indígenas no ano passado. Em todo o país, o levantamento próprio do Cimi contabilizou 63 casos que resultaram na morte de 68 indígenas. Os homicídios ocorreram em 13 estados, sendo três casos registrados no Acre.

O cenário também inclui duas tentativas de assassinato no estado. Ao todo, o Cimi registrou 38 casos dessa natureza no Brasil, envolvendo pelo menos 43 pessoas. O Acre aparece com dois registros, ao lado de estados como Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima.

Além da violência letal, o relatório aponta uma série de situações envolvendo ameaças, invasões de territórios, exploração ilegal de recursos naturais, desassistência e violência contra mulheres e crianças indígenas no Acre.

Um dos casos relatados envolve o povo Huni Kui, na Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Curralinho, em Feijó. Segundo o Cimi, lideranças denunciaram que posseiros continuavam desmatando uma área reivindicada pela comunidade e intimidando indígenas. A falta de conclusão do processo de identificação e delimitação da terra, de acordo com o relatório, aumenta a vulnerabilidade da comunidade.

Na Terra Indígena Kaxinawá da Praia do Carapanã, que abrange áreas de Tarauacá e se estende em direção a Jordão, lideranças Huni Kui denunciaram invasões por caçadores, madeireiros e pescadores. O relatório registra ainda a extração ilegal de madeira e de outros recursos naturais.

Em outro episódio, os indígenas denunciaram que pescadores ilegais utilizavam malhadeiras e realizavam a caça de tracajás e coleta de ovos, reduzindo a disponibilidade de alimentos para as aldeias. A extração ilegal de madeira também foi relatada na região.

Ameaças e violência contra mulheres

O relatório também registra dois casos de ameaças contra indígenas no Acre. Um deles ocorreu no contexto da paralisação judicial das obras do chamado Ramal do Barbary, entre Rodrigues Alves e Porto Walter. Segundo o Cimi, lideranças da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto passaram a receber ameaças após uma decisão judicial interromper as obras por irregularidades ambientais e relacionadas aos direitos indígenas.

Na violência contra a pessoa, o Cimi contabilizou ainda um caso de violência sexual contra indígena no Acre em 2025. Em todo o país, foram registrados 25 casos, sendo 20 classificados como estupro de vulnerável, envolvendo crianças com menos de 14 anos.

O levantamento também cita um caso de violência doméstica contra uma mulher Huni Kui, de 31 anos, em Porto Walter. Segundo o relatório, a vítima estava grávida de quatro meses quando foi agredida pelo marido e precisou ser encaminhada para atendimento hospitalar.

Desassistência

A violência contra os povos indígenas no Acre, segundo o Cimi, não se limita aos crimes praticados diretamente contra as comunidades. O relatório registrou três casos de “desassistência geral” no estado em 2025, dentro de um total de 58 ocorrências no país.

Entre os exemplos está a situação da Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, em Feijó. O Ministério Público Federal instaurou procedimento para acompanhar a implementação de políticas públicas reivindicadas pela comunidade, incluindo melhorias no abastecimento de água, construção de açudes, estruturas tradicionais e outras demandas.

Na Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Curralinho, uma enchente do rio Envira provocou perdas materiais, derrubada de casas e destruição de roças de subsistência. Conforme o relatório, o apoio estatal só ocorreu depois que o Ministério Público Federal acionou a União.

Na área da saúde, o Cimi registrou dois casos de desassistência no Acre. Em âmbito nacional, foram 121 ocorrências relacionadas à falta ou precariedade de atendimento de saúde aos povos indígenas.

Terras indígenas

O relatório também aponta que o Acre ainda possui 14 terras indígenas com algum tipo de pendência administrativa. Dessas, seis estão na etapa de identificação, duas são identificadas, uma possui portaria de declaração, uma tem portaria de restrição e quatro aparecem na categoria “sem providências”.

Entre os territórios citados estão áreas com presença de povos indígenas isolados, como a região dos rios Muru e Iboiaçu, Chandless e Igarapé Taboca do Alto Tarauacá.

O documento registra ainda a delimitação da Terra Indígena Riozinho do Iaco, do povo Manchineri, como uma das conquistas territoriais ocorridas no país em 2025.

No balanço nacional, o Cimi contabilizou 210 casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio indígena em 2025, atingindo pelo menos 151 terras indígenas em 20 estados.

No Acre, os relatos incluem invasões para caça e pesca ilegais, retirada de madeira e outros recursos naturais, além de conflitos relacionados à ocupação e à falta de regularização de territórios indígenas.

Em Jordão e Tarauacá, o relatório também registra a Operação “Patrão”, realizada pela Polícia Civil contra comerciantes acusados de reter cartões e senhas de indígenas beneficiários do Bolsa Família. A operação apreendeu 300 cartões, além de dinheiro, equipamentos e armas, e resultou em quatro prisões.

O levantamento do Cimi ressalta que os registros representam apenas uma parcela das situações de violência vivenciadas pelos povos indígenas no país, já que dependem de informações obtidas por equipes do próprio conselho, comunidades, autoridades e notícias publicadas pela imprensa.

 

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