Pesquisadores desenterraram novos fósseis que dão pistas sobre a evolução de duas grandes famílias de macacos do Novo Mundo. A descoberta, realizada na região do Acre a partir de sedimentos da formação geológica Solimões Superior, consiste em quatro dentes e um fragmento de “osso do tarso” com cerca de 11 milhões de anos.
Apesar de pequenos, os vestígios mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do período Mioceno na Amazônia e permitiram descrever duas espécies inteiramente inéditas para a ciência: o Parabrachyteles vesperus e o Migmacebus juruaensis.
De acordo com o site da Universidade de São Paulo (USP), os fósseis estão em estado moderado de preservação e mais que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira, além de revelarem as duas novas espécies.
A nomeação dos dois macacos foi possível graças à tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica dos fósseis encontrados.
Os cientistas reconstruíram sua alimentação baseada nos macacos atuais: com cerca de seis quilos, Parabrachyteles vesperus tinha uma dieta composta de alimentos fibrosos, rica em folhas, como a dos muriquis.
Já Migmacebus juruaensis provavelmente não ultrapassava um quilo, e teve uma dieta composta principalmente de frutas e objetos duros, como os atuais macaco-prego, macaco-inglês e parauacu.

Modelos digitais 3D dos restos dentários de primatas platirrinos da Formação Solimões Superior, Estado do Acre/Foto: retirada do artigo
De acordo com o artigo, publicado no Journal of Mammalian Evolution (Nature), a descrição do Parabrachyteles representa um capítulo da história evolutiva dos muriquis, enquanto Migmacebus se apresenta como uma “quimera morfológica dos macacos-esquilo atuais e dos macacos-prego”.
Os achados vieram à tona em pontos estratégicos do interior acreano, como nas margens do Alto Rio Juruá (em Marechal Thaumaturgo) e no trecho da BR-364 situado entre Tarauacá e Feijó.
O trabalho científico é fruto de uma longa parceria internacional e institucional que envolve a Universidade Federal do Acre (Ufac), o Jornal da USP e o Museu de Ciências Naturais (MCN) do Rio Grande do Sul, além de centros de pesquisa da França e da Argentina.

Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior/Mapa: retirado do artigo
O resgate do material exigiu técnicas minuciosas de peneiramento (screenwashing) em laboratório. Segundo os pesquisadores, a raridade histórica de fósseis de primatas na região se deve às barreiras impostas pelo ambiente tropical densamente florestado. O acesso aos afloramentos rochosos só é viável no período de vazante dos rios.
Detalhes completos sobre o estudo foram publicados no periódico científico Journal of Mammalian Evolution, abrindo novas portas para entender como as mudanças climáticas e ambientais moldaram a biodiversidade sul-americana ao longo dos milênios.
