19/08/2026

Fósseis de 11 milhões de anos encontrados no Acre revelam novas espécies de macacos

Os fósseis mais que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet
Muriquis são os maiores macacos das Américas/Foto: Bart van Dorp/Flickr

Pesquisadores desenterraram novos fósseis que dão pistas sobre a evolução de duas grandes famílias de macacos do Novo Mundo. A descoberta, realizada na região do Acre a partir de sedimentos da formação geológica Solimões Superior, consiste em quatro dentes e um fragmento de “osso do tarso” com cerca de 11 milhões de anos.

Apesar de pequenos, os vestígios mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do período Mioceno na Amazônia e permitiram descrever duas espécies inteiramente inéditas para a ciência: o Parabrachyteles vesperus e o Migmacebus juruaensis.

De acordo com o site da Universidade de São Paulo (USP), os fósseis estão em estado moderado de preservação e mais que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira, além de revelarem as duas novas espécies.

A nomeação dos dois macacos foi possível graças à tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica dos fósseis encontrados.

Os cientistas reconstruíram sua alimentação baseada nos macacos atuais: com cerca de seis quilos, Parabrachyteles vesperus tinha uma dieta composta de alimentos fibrosos, rica em folhas, como a dos muriquis.

Já Migmacebus juruaensis provavelmente não ultrapassava um quilo, e teve uma dieta composta principalmente de frutas e objetos duros, como os atuais macaco-prego, macaco-inglês e parauacu.

Modelos digitais 3D dos restos dentários de primatas platirrinos da Formação Solimões Superior, Estado do Acre

Modelos digitais 3D dos restos dentários de primatas platirrinos da Formação Solimões Superior, Estado do Acre/Foto: retirada do artigo

De acordo com o artigo, publicado no Journal of Mammalian Evolution (Nature), a descrição do Parabrachyteles representa um capítulo da história evolutiva dos muriquis, enquanto Migmacebus se apresenta como uma “quimera morfológica dos macacos-esquilo atuais e dos macacos-prego”.

Os achados vieram à tona em pontos estratégicos do interior acreano, como nas margens do Alto Rio Juruá (em Marechal Thaumaturgo) e no trecho da BR-364 situado entre Tarauacá e Feijó.

O trabalho científico é fruto de uma longa parceria internacional e institucional que envolve a Universidade Federal do Acre (Ufac), o Jornal da USP e o Museu de Ciências Naturais (MCN) do Rio Grande do Sul, além de centros de pesquisa da França e da Argentina.

Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior/Mapa: retirado do artigo

O resgate do material exigiu técnicas minuciosas de peneiramento (screenwashing) em laboratório. Segundo os pesquisadores, a raridade histórica de fósseis de primatas na região se deve às barreiras impostas pelo ambiente tropical densamente florestado. O acesso aos afloramentos rochosos só é viável no período de vazante dos rios.

Detalhes completos sobre o estudo foram publicados no periódico científico Journal of Mammalian Evolution, abrindo novas portas para entender como as mudanças climáticas e ambientais moldaram a biodiversidade sul-americana ao longo dos milênios.

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