O fisiculturismo é uma prática focada no desenvolvimento muscular por meio de exercícios progressivos, com objetivo estético. Representando o Acre, quem conquistou recentemente, em 12 de outubro, a 1ª posição na maior competição de fisiculturismo do mundo — o Mr. Olympia 2025, na categoria Classic Physique — foi o atleta acreano Ramon Rocha Queiroz, conhecido mundialmente como Ramon Dino, o “Dinossauro do Acre” — feito que reflete o crescimento da modalidade no estado.
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Ramon Dino celebra a conquista histórica do título no Mr. Olympia 2025, em Las Vegas, apontando para o alto em gesto de gratidão e vitória/Foto: Reprodução
Em 13 de abril de 2024, o jornalista Douglas Richer, do ContilNet e em parceria com a TV Rio Branco, teve a oportunidade de entrevistar Ramon Dino na residência do atleta em São Paulo. Durante a conversa, Dino mostrou o lado mais humano de sua vida, contando sobre a família, os desafios das competições e sua determinação para se superar.
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Em um trecho inspirador, o campeão mundial falou sobre como lidar com a fama se tornou mais natural ao compreender seu próprio propósito.
“Quando você conhece seu propósito, começa a ter noção de como trabalhar a sua vida, como lidar com o carinho e a atenção das pessoas. Tudo que eu queria há um tempo atrás, hoje consigo dar conta da melhor forma.” A fala revelou o equilíbrio que Dino buscou diante da crescente visibilidade e da pressão por resultados em um esporte tão exigente como o fisiculturismo.

Ramon Dino e Vitória Viana em conversa com Douglas Richer em 2024, na residência do atleta em São Paulo – um registro exclusivo do jornalista acreano, que faleceu em fevereiro de 2025/Foto: ContilNet
O atleta também destacou a importância da saúde mental e do acompanhamento psicológico em sua rotina, reconhecendo que o equilíbrio emocional é parte essencial de sua preparação. Segundo ele, cuidar da mente é tão necessário quanto o treino físico. Essa maturidade, aliada à fé e à disciplina, o ajudou a construir uma mentalidade vencedora.
O bate-papo também trouxe momentos de intimidade, quando Ramon apresentou a esposa, Vitória Viana, e falou sobre a formação de sua família.
“Ela é meu braço direito, mãe dos meus filhos. Me ajuda muito […] Nos dedicamos bastante ao esporte, tiramos tempo para nós mesmos, mas ela está sempre ao meu lado.”
Vitória também comentou sobre como cuida do marido após as competições, sempre em tom de admiração e carinho durante toda a entrevista.
“Assim que ele sai, eu o parabenizo, abraço. Estou ali pra ele. O campeão não é feito só em vitórias [relembrou os anos anteriores, quando havia ficado em 2º lugar no Mr. Olympia, em 2022 e 2023]; também nas perdas há campeões.
A entrevista ficou ainda mais memorável e especial após a morte de Douglas Richer, em 2 de fevereiro de 2025, aos 37 anos, vítima de fibrose pulmonar idiopática. Para muitos, esse registro se tornou inesquecível, pois foi a primeira vez que Ramon recebeu uma equipe de jornalismo do Acre em sua casa. A conversa trouxe à tona não apenas a trajetória de um atleta de elite, mas também o talento e sensibilidade de Douglas, que eternizou um momento emocionante e íntimo do campeão acreano.
Adentrando o cenário local
O atleta, nutricionista e empresário Eduardo Pavoski compartilha sua visão sobre o crescimento do fisiculturismo no Acre, destacando o aumento de atletas de alto nível e a consolidação da modalidade no estado. Para ele, esse esporte é uma prática de extrema disciplina e resiliência. Apesar de ser uma modalidade cara, ele ressalta que cada etapa da preparação e das competições faz parte da beleza do fisiculturismo.
“Fisiculturista é uma super pessoa. Não é normal aguentar treinar tanto, não é normal ter um metabolismo que agregue tanta massa magra, não é normal o hiperfoco e a resiliência. São super pessoas”, afirma Pavoski.

O atleta, nutricionista e empresário Eduardo Pavoski durante participação na Feira Arnold Classic South America 2022, em São Paulo/Foto cedida
Ele explica que, para iniciar na modalidade — seja por acaso, por ver alguém competindo ou por acompanhar a prática desde cedo —, o básico é manter treino e alimentação adequados de forma constante. Somente após um período de um a três anos é possível pensar em preparo para competições, sempre com acompanhamento de um bom treinador.
Segundo Pavoski, a vida do atleta se resume a duas fases principais: o off season (fora de temporada), quando há ganho de peso e busca por volume muscular; e o pre-contest (pré-concurso), fase de perda de peso e busca por definição, preservando o volume conquistado.
“Acredito que 95% dos atletas não vivem do esporte, e sim têm trabalhos paralelos para bancar a carreira. O corpo tem limites — de treino, de dieta, de tolerância aos esteroides — e esses limites são individuais”, comenta.

Ramon Dino, Márcio Garcia, Eduardo Pavoski e Janaína Paes, em 2016, quando seria a 1ª competição do Ramon/Foto cedida
Ele também menciona que, do amador ao profissional, os atletas recorrem ao uso de esteroides para melhorar o desempenho. Segundo ele, esse recurso, apesar de polêmico, é necessário para se alcançar o alto nível.
Autodidata, Pavoski iniciou sua carreira como atleta por conta própria, pesquisando, testando métodos e aplicando conhecimentos adquiridos ao longo da vida, incluindo nutrição, endocrinologia e treinamento resistido.
“O investimento é contínuo: além de dieta, academia e hormônios, é essencial acompanhamento médico regular, nutricionista e, se possível, psicólogo.”
Um pouco sobre o Mr. Olympia
O Mr. Olympia é um evento promovido pela IFBB (International Federation of Bodybuilding and Fitness), reunindo atletas profissionais que competem com uso de recursos ergogênicos, como anabolizantes permitidos dentro das regras da federação — ou seja, não há testes antidoping.
A competição inclui categorias como Open Bodybuilding, 212, Classic Physique, Men’s Physique, Bikini, Wellness, Figure, Women’s Physique, Fitness e Wheelchair (para atletas com deficiência), abrangendo diversas divisões masculinas e femininas no nível profissional, reforçando a inclusão e a representatividade no esporte.
Ainda assim, existe o Natural Olympia, promovido pela INBA/PNBA (International Natural Bodybuilding Association / Professional Natural Bodybuilding Association), voltado exclusivamente a atletas testados — ou seja, que não utilizam substâncias anabolizantes e passam por rigoroso controle antidoping.
O evento reúne tanto iniciantes quanto profissionais e conta com diversas categorias masculinas e femininas, incluindo Bodybuilding, Physique, Classic Physique, Sport Model, Figure, Bikini Divas, Wellness, Beach Body, Swimsuit Model, além de divisões para atletas com deficiência física e faixas etárias variadas. É importante lembrar que as faixas etárias (Masters, Grand Masters etc.) são comuns em competições como o Natural Olympia ou eventos amadores, mas não fazem parte do Mr. Olympia oficial.
Vale lembrar que existem diversos outros campeonatos e concursos de fisiculturismo ao redor do mundo. Dino, inclusive, foi campeão na categoria Classic Physique da edição 2023 do Arnold Classic Ohio, fundado por Arnold Schwarzenegger, que ganhou o Mr. Olympia 7 vezes consecutivas, de 1970 a 1975. Esta competição se consolida como a segunda mais importante do fisiculturismo profissional, atrás apenas do Mr. Olympia.
Há também o Mr. Olympia Brasil, a versão brasileira do principal evento de fisiculturismo do mundo, promovido pela BTFF (Brasil Trading Fitness Fair) e organizado pela IFBB Pro League. O evento oferece aos atletas amadores a chance de conquistar o Pro Card, tornando-se profissionais e podendo competir no Mr. Olympia principal. Entre as categorias profissionais estão Classic Physique, Bikini, Wellness e 212, reunindo atletas de alto nível.
Dino é um dos grandes destaques do Mr. Olympia Brasil. Ele venceu a categoria Classic Physique em 2018, garantindo seu Pro Card, e em edições seguintes conquistou títulos importantes na mesma categoria, reforçando seu prestígio no cenário nacional. Mesmo enfrentando desafios em algumas competições, a experiência no Mr. Olympia Brasil consolidou sua carreira e abriu caminho para conquistas internacionais, culminando no título mundial no Mr. Olympia 2025.
Voltando ao cenário local
Outro nome importante do cenário local é o biomédico, massoterapeuta e atleta Ricardo Muller, especializado em atletas de alta performance. Ele trabalha com atletas de alta performance, juntamente a uma equipe que trata de atletas a âmbito nacional.
“Sinto que o fisiculturismo no estado está em ascensão. Existem vários nomes que são promissores e levam o nome do Acre para o mundo, como o próprio Dino, bem como Everson Costa, Tiago Balbino, Herlayne Braga. Eles são inspiração”, afirma.
Ricardo ressalta que a psicologia do esporte o ajuda a manter equilíbrio emocional diante das adversidades.
A prática intensa e constante pode gerar estresse, ansiedade e pressão emocional, e o suporte psicológico ajuda o atleta a lidar com essas demandas. Existem também as possíveis lesões musculares e ligamentares que são comuns devido à intensidade dos treinos, e o trabalho mental permite que o atleta desenvolva resiliência, inteligência emocional e estratégias para superar desafios dentro e fora da competição.
No fisiculturismo, onde não há placares objetivos e os resultados dependem exclusivamente da avaliação de jurados, a autoconfiança se torna um diferencial decisivo. A psicologia contribui para que o atleta compreenda seus limites, organize sua rotina mental e aprimore o controle emocional em momentos de tensão, apresentações e finais de campeonatos.
Para ele, o fisiculturismo vai além da musculação — envolve constância, alimentação adequada e paixão pela forma como o corpo se transforma. Assim, o suporte psicológico não só melhora o rendimento, mas também promove motivação e bem-estar ao longo de toda a trajetória esportiva.
Embora o esporte ainda seja mais comum entre homens, as categorias femininas vêm crescendo rapidamente no Brasil. A brasileira Eduarda Bezerra é um grande exemplo, pois foi campeã do Mr. Olympia 2025, onde, com 26 anos, competiu na categoria Wellness. Ela também conquistou o título de campeã da categoria Wellness no Arnold Classic Ohio 2025.

Eduarda Bezerra celebra a conquista no Olympia 2025, mostrando que o fisiculturismo feminino brasileiro também brilha no cenário internacional/Foto: Beto Kaulino
No Acre, a realidade do fisiculturismo é marcada pela colaboração entre atletas e profissionais de diferentes áreas. Eduardo Pavoski cita que existem empresas locais e nacionais que oferecem apoio a atletas e profissionais, auxiliando com suplementação, passagens e inscrições em competições.
Apesar da distância geográfica, o Acre tem mostrado cada vez mais força. Atletas locais seguem competindo em alto nível e consolidando um cenário mais profissional e acolhedor. A união entre eles torna a jornada mais leve e inspiradora. Ser fisiculturista é viver uma realidade desafiadora e extremamente satisfatória”, diz ele.
Também temos um panorama pelo empresário e ex-atleta de fisiculturismo Márcio Garcia, que é conhecido por muitos como o homem que descobriu o Dino. Em entrevista exclusiva ao ContilNet, Márcio relembrou o primeiro encontro com o atleta e os primeiros passos de uma trajetória que começou de forma simples, em Rio Branco, e acabou se tornando uma das maiores histórias de superação do esporte acreano.
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Ramon Dino ao lado de Márcio Garcia, empresário e ex-fisiculturista acreano que descobriu o campeão ainda no início da carreira/Foto cedida
“Eu já era atleta, estava me preparando para uma competição em Porto Velho. Um dia fui ao mercado e vi um caixa novinho, forte, com os braços grandes. Ele olhou pra mim empolgado e disse que fazia calistenia. Eu nem dei muita moral naquele momento, mas dias depois, caminhando no Horto, vi de longe um rapaz fazendo barra com uma definição muscular absurda. Quando cheguei perto, era ele — o Ramon […] Ele veio de uma realidade simples, mas tinha algo raro. Ele sofreu muito, porque o esporte é duro — envolve dieta pesada, corte de carboidrato e até de água. Mas sempre falei pra ele: ‘Se tiver oportunidade, vai ser o melhor do mundo’. E ele foi”, contou.
Ele publicou nas redes sociais um relato sobre a vitória de Ramon, que emocionou milhares de pessoas; nos comentários, diversos internautas reconheceram o mérito de Márcio pela descoberta do atleta e pelo apoio ao crescimento do amigo.
“Do início ao topo do mundo. Eu vi esse sonho nascer, lá atrás, quando tudo era apenas vontade, garra e fé. Vi o brilho nos olhos, o esforço diário e a fome de vencer. Hoje, ver Ramon Dino se consagrar campeão é algo que vai além do orgulho: é testemunhar a realização de um sonho que começou pequeno, mas que sempre foi gigante no coração. Nada acontece por acaso. Cada treino, cada sacrifício e cada dia de luta levaram até aqui. E eu só posso dizer: valeu a pena, porque antes de ser campeão no palco, ele já era campeão na alma”.
A vice-governadora do Acre, Mailza Assis, durante uma entrevista ao ContilNet, celebrou a vitória de Ramon Dino como um marco que ultrapassa o esforço individual e simboliza a força de toda a comunidade acreana.
“Esse feito não é só do Ramon. É de toda uma comunidade que acreditou, mesmo quando tudo parecia impossível”, destacou. Ela lembrou que, desde criança, acompanhou sonhos sendo deixados pelo caminho por falta de apoio e estrutura, e que, agora, a conquista do atleta inspira esperança em todo o estado.
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Mailza Assis ressaltou que a vitória de Ramon representa toda a comunidade acreana e reforça a importância dos investimentos no esporte/Foto: Júnior Aguiar/Sesacre
Mailza reforçou que o triunfo de Dino representa não apenas força física, mas também o coração, o suor e o sacrifício de um povo inteiro.
“Quando um acreano chega tão longe, sinto essa conquista como minha, como se cada filho deste estado tivesse ganhado um pouco mais de esperança”, afirmou.
A vice-governadora finalizou chamando atenção para a importância de investimentos no esporte local.
“Precisamos construir uma base esportiva sólida no Acre, para que cada menino e menina, mesmo treinando no quintal de casa, possa ter oportunidade, porque talento o Acre tem de sobra”, concluiu, ressaltando que o sucesso de Dino deve servir de exemplo e incentivo para futuras gerações.
O secretário de Esporte e Lazer do Acre, Ney Amorim, que também cedeu fala ao ContilNet sobre a conquista de Ramon Dino, considerou que a vitória ultrapassou o individual e simboliza a superação de todos os atletas acreanos. Para ele, o título representa o sonho de muitos que enfrentam desafios diários para alcançar o topo, mesmo com as limitações da região.
“O Dino carrega o sonho de vários atletas acreanos que batalham com todas as dificuldades para chegar lá. No Acre temos grandes talentos em nível nacional e mundial, que só precisam de oportunidade”, destacou.

Ney Amorim enfatizou a dedicação do atleta e o impacto da vitória para incentivar jovens e atletas no Acre/Foto: Ascom
Ney também ressaltou o apoio do governo estadual ao esporte e o significado da conquista para o povo acreano.
“O governador Gladson Camelí e a Secretaria de Esportes têm feito de tudo para incentivar nossos atletas a chegarem mais longe. A vitória do Dino é um símbolo de perseverança, de acreditar e lutar. Ele já vinha batalhando há muito tempo e, dessa vez, conseguiu ser campeão, representando com orgulho o Brasil e o nosso estado. É um motivo de grande alegria para todos nós”, concluiu.



