14/08/2026

Alerta! Lideranças denunciam invasões e ameaças em terras indígenas do Acre

Lideranças denunciaram invasões, retirada ilegal de madeira, caça, pesca e avanço de áreas de pastagem

Por Sávio Buriti, ContilNet
Os agentes também identificaram focos de desmatamento e ocupações ilegais. /Foto: Denisa Sterbova / Cimi

O Acre registrou oito casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio de terras indígenas ao longo de 2025. Os dados constam no relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025, divulgado nesta quinta-feira (13) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O levantamento reúne ocorrências registradas em diferentes territórios indígenas do estado e aponta problemas que vão desde abertura de pastagens e desmatamento até caça e pesca ilegais, extração clandestina de madeira, abertura de estradas e poluição de cursos d’água.

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Um dos casos registrados ocorreu na terra indígena Campinas/Katukina, em Cruzeiro do Sul. Segundo o relatório, denúncias encaminhadas ao Ministério Público Federal apontaram a ocupação ilegal de uma área de mata virgem para instalação de pastagens e criação de gado. Diante da situação, o MPF recomendou ao Ibama e à Polícia Federal a retirada de possíveis invasores, além da fiscalização e destruição de estruturas consideradas ilegais.

Em novembro de 2025, uma operação conjunta do Ibama, Polícia Federal e Funai destruiu acampamentos temporários e apreendeu equipamentos utilizados no desmatamento, entre eles motosserras, lonas e ferramentas. Os agentes também identificaram focos de desmatamento e ocupações ilegais na região sudoeste da terra indígena.

Na terra indígena Jaminawa do Igarapé Preto, foram encontradas cinco trilhas e pontes improvisadas utilizadas por invasores para acessar o território e praticar caça ilegal. Durante uma operação de fiscalização, também foram identificadas áreas desmatadas e alterações ilegais em placas e marcos de delimitação da terra indígena.

Já na terra indígena Jaminawa do Rio Caeté, lideranças denunciaram a entrada frequente de caçadores acompanhados de cachorros. Segundo os indígenas, a prática afasta os animais e reduz a quantidade de caça disponível para as comunidades, obrigando os moradores a percorrer distâncias maiores em busca de alimento.

Outra área afetada foi a terra indígena Kaxinawá da Praia do Carapanã, onde foram registradas diferentes formas de pressão sobre o território. As lideranças Huni Kui denunciaram o descarte de lixo no rio Tarauacá por catraieiros que fazem o trajeto entre Tarauacá e Jordão.

O rio atravessa a terra indígena e passa por áreas próximas a diversas aldeias. De acordo com o relatório, o lixo lançado na água chega às margens das comunidades, prejudica a pesca e afeta uma importante fonte de alimentação dos indígenas. O caso foi levado ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Acre.

Na mesma terra indígena também foram denunciadas invasões de caçadores, pescadores e madeireiros. Segundo os relatos, há presença de caçadores acompanhados de cachorros, pescadores utilizando malhadeiras e pessoas envolvidas na caça de tracajás e coleta de ovos durante o período de desova. A extração ilegal de madeira também foi registrada na região.

Na terra indígena Kaxinawá do Seringal Curralinho, atualmente reivindicada pelos indígenas como TI Hene Baria Namakia, lideranças da aldeia Boa Esperança relataram a continuidade do desmatamento provocado por posseiros em uma área localizada próxima à comunidade. Além dos danos ambientais, os indígenas afirmaram ter sido alvo de intimidações.

O território ainda enfrenta dificuldades relacionadas à falta de conclusão do processo de identificação e delimitação. De acordo com o Cimi, essa situação aumenta a vulnerabilidade da comunidade e dificulta a atuação dos órgãos de fiscalização.

Em janeiro de 2025, o Ministério Público Federal abriu um inquérito civil para investigar denúncias de invasões e ameaças na área. Conforme o relatório, invasores estariam utilizando armas artesanais para instalar armadilhas em pontos de caça utilizados pelos indígenas.

Outro caso foi registrado na terra indígena Kaxinawá Seringal Independência, no município de Jordão. Em março, lideranças Huni Kui denunciaram a entrada de madeireiros no território. Durante uma ação de monitoramento, foram encontradas toras derrubadas e serradas.

Além da extração ilegal de madeira, os indígenas relataram a presença de caçadores e pescadores não indígenas. A situação, segundo as comunidades, reduz a disponibilidade de alimentos e ameaça a segurança alimentar das aldeias. O relatório também menciona denúncias recorrentes relacionadas à presença de drogas dentro das comunidades.

Os oito casos registrados no Acre fazem parte de um cenário mais amplo apontado pelo Cimi em relação à pressão sobre terras indígenas na Amazônia. O relatório destaca que invasões e exploração ilegal de recursos continuam ocorrendo em diferentes territórios, mesmo após ações de fiscalização.

O documento também chama atenção para outras formas de exploração, como o arrendamento de terras indígenas para criação de gado e cultivo de monoculturas. Em 2025, ocorrências relacionadas à agropecuária, incluindo criação de gado, monocultivos e arrendamento, foram registradas em 19 terras indígenas.

Segundo o Cimi, o arrendamento é uma prática proibida por comprometer o usufruto exclusivo dos povos indígenas sobre seus territórios e pode colocar áreas sob exploração econômica em benefício de terceiros. A prática também pode ampliar conflitos e pressionar comunidades a aceitar atividades que não fazem parte de suas formas tradicionais de ocupação e manejo.

No Acre, os registros reunidos no relatório mostram que as comunidades indígenas continuam enfrentando diferentes tipos de pressão sobre seus territórios. As ocorrências envolvem desde o avanço de pastagens e desmatamento até invasões para caça, pesca e retirada de madeira, além de problemas ambientais que afetam diretamente os rios e a segurança alimentar.

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